sábado, 4 de março de 2017

Sobre a Rosália...


Apesar do inverno rigoroso do sul do Brasil e da chuva persistente, as paisagens eram exageradamente bonitas. Cruzar a solidão daqueles campos infinitos, completamente sozinho, em condições climáticas severas e sem um destino racional mexeu bastante comigo. Muitas vezes eu me sentia como se a minha razão estivesse desligada e essa sensação era maravilhosa e emocionante.


O dia já estava se encerrando e a estradinha ruim foi piorando muito. Terreno pedregoso e enlameado, sem sinal de casas ou povoados por perto. O cansaço já me atingia com toda força. O frio molhado e o tal do minuano tornaram-se ásperos. Meus pés estavam prestes a congelar. As mãos estavam duras.
Tarde demais percebi que aquela estrada estava abandonada e ficando muito perigosa. Caso eu me acidentasse, teria que esperar dias por alguma ajuda. Depois de uma curva escorreguenta de quase 180º, por onde corria um riacho, logo adiante percebi uma casinha de madeira, abandonada entre árvores baixas.
A luz do dia já tinha quase acabado. Este seria um bom lugar para dormir e isso me animou. Então, senti cheiro gostoso de lenha queimando. Havia gente morando naquelas lonjuras! Pensei em parar e pedir informações, porém não vi nenhuma luz acesa.


Ao passar em baixa velocidade devido ao terreno barrento e pedregoso, vi uma senhora em pé na varanda. Cumprimentei-a com um gesto, mas parece que ela não respondeu. Continuei o percurso no instante em que ela falou alguma coisa comigo. Parei a moto e morri de medo: ela estava com uma garrucha na mão?


Eu devia ter entrado aonde não poderia. Mas não consegui retornar, o barro e a estrada estreita e inclinada me impediam de virar. Ao colocar o pé no chão, quase levei um tombo. Era só o que me faltava: molhado, cansado, perdido, com muita fome e ainda levar um tiro por ter invadido uma propriedade particular.
Não teve jeito, tive que desobedecê-la e prosseguir por uns metros até conseguir voltar para pedir desculpas e informações. A senhorinha, a garrucha e agora seu cachorro grandinho e silencioso continuavam na varanda. Tirei o capacete pra conversar. Ela me informou, num sotaque carregado, que a estrada havia mudado fazia alguns anos e que ninguém passava mais por ali. Explicou que eu teria que voltar uns 35 km até retomar a estrada principal. Dali para frente, a estrada acabava num arroio e que não era bom ficar "campeando" nesse tempo.


O desânimo bateu com força. Estava exausto! Havia dias que estava naquelas lonjuras, no gelo do inverno e com roupas molhadas que não secavam nunca. Era noite, retornar naquela estrada difícil e perigosa me assombrava. Agradeci à senhora pela informação. Quando fui colocar o capacete para continuar, meu pé escorregou e fui para o chão, com moto e mochila cargueira. O cachorro, até então silencioso e imóvel, veio latindo com tudo e nem reagi. Mas ele só me cheirou. Ergui a moto e fui buscar o capacete, que acabou indo longe. Nessa momento, a senhora falou que era melhor que eu "saísse da chuva e seguisse no outro dia".
Advertiu que em pouco tempo a temperatura iria cair ainda mais e que eu ficaria "embreteado". Agradeci. Meus joelhos estavam congelados. A moto teve que ficar lá na estrada mesmo, nem me atrevi a subir com ela o barranco em que a casa se assentava.

Só então vi que a casa era pequena, praticamente uma cabana. Plantinhas em infinitos vasos ocupavam grande parte da varanda. O som da chuva e do vento no telhado de zinco formava uma atmosfera até interessante, mas também demonstrava a fragilidade daquela construção. Raspei o barro dos pés numa pedra posicionada para isso.
Dentro da casa, tudo muito limpo e muito organizado, porém bastante escuro. A única luz vinha de uma lamparina fumacenta e fraca, perto do fogão. O vento entrava por entre as frestas, que eram muitas. Poucos móveis, um baú, couros que me pareceram de ovelha. Simplicidade reinava. O cachorro também entrou, recolheu-se numa caixa no cantinho e não saiu mais de lá. Fechando a porta, ela disse que eu poderia colocar minhas coisas perto do fogão para ir secando e voltou às panelas que borbulhavam cheiros maravilhosos. Tentei oferecer alguma ajuda, mas um silêncio constrangedor foi a resposta. Na tentativa de puxar uma conversa, comecei a contar de onde eu vinha e o que fazia por ali. Ela não falava quase nada. Não consegui perceber se ela me ignorava ou se a sua mente também borbulhava. Instantaneamente, imaginei o quanto seria difícil aquela noite.
De onde eu estava vi, junto à imagem de uma santa, algumas fotos antigas, provavelmente dela e de sua família. Não me atrevi a perguntar nada sobre suas memórias. A luz pouca e a imaginação muita iam desenhando aquela casa que tinha uma atmosfera estranha. Era como se eu estivesse dentro de uma garrafa de náufrago. 
Com o passar dos primeiros instantes, pouco a pouco sua expressão foi se iluminando. A casa foi se aquecendo e meu monólogo foi se tornando uma conversa. Chamava-se Rosália. Morava há muitos anos nesse local, onde quase ninguém passava.

A janta ficou pronta. Abriu uma gaveta, tirou uma toalha e forrou a mesa. Colocou os pratos de uma forma que me pareceu ritual. Desapareceu no escuro de um cantinho perto das lenhas. Voltou de lá com um garrafão de vinho, dizendo ser "água-benta de beber despacito".
No começo ela me fez algumas perguntas, mas logo era somente ela que falava.
Dona Rosália era uma impressionante senhora de mais de 80 anos, plenamente ativa. Era visivelmente uma mulher valente. Usava gorro de lã, uma espécie de chale de lã sobre os ombros, meias grossas e chinelo. Não fazia nada com dificuldade. Começou a contar muitas histórias. A família dela e do finado marido foram proprietárias de muitas terras. Antigamente aquela região era muito movimentada e próspera. Todos sonhavam com um futuro promissor.
Só que a vida mudou todas as peças do tabuleiro e hoje ela possui apenas aquela casinha. E assim, o único contato que tem com a civilização é a passagem do leiteiro, três vezes por semana, do outro lado do arroio. Era impressionante como uma senhora idosa, esquecida por todos, ficasse sozinha, virando-se como podia!
A sensação era de que Dona Rosália havia caído numa fenda do tempo, ou até fosse uma personagem criada pela minha imaginação. Quem sabe era eu quem teria caído da moto, batido a cabeça e estivesse delirando em algum confim dos pampas?

E foi contando histórias dos tempos antigos, de disputas políticas e rurais, de como era a vida das pessoas até então. Cada palavra retumbava na minha mente, cada idéia se repartia em muitos significados. Era uma mulher muito sábia e inteligente. Lamentava-se do esquecimento do mundo rural, considerava que isso era até mesmo um erro de estratégia nacional. Entendi que neste ponto talvez estivesse a chave do que a manteve ali, naquela reclusão.
Contava tudo num sotaque carregado. Era quase um espanhol, por vezes divertido, com muitas palavras desconhecidas, típicas da região entre o Rio Grande do Sul e o Uruguai.
Ela contava sobre acontecimentos bastante relevantes, que acho que jamais foram escritos e talvez nunca o serão.
Pelo modo como falava, creio que há muito tempo não conversava com ninguém. Difícil esquecer o instante em que ela ficou olhando a luz do fogão. Depois falou,
com voz de tantos anos vividos, como se a sabedoria pudesse se impregnar no som da sua fala: "viver é ofício da despedida".


A janta estava ótima. Vinho muito bom, queijo, arroz, salame que me pareceu artesanal, cenoura, molho com outros ingredientes deliciosos que não reconheci. Terminada a janta, ela recolheu os pratos e em seguida me pediu para colocar uma espécie de sofá de madeira perto do fogão para eu dormir.
Forrou com vários panos e cobertores, cada tipo com um nome local que infelizmente não conservei. Fiquei um pouco envergonhado, porque limpo eu não estava e banho passava longe dos meus planos naquele momento. Por isso, usei meu saco de dormir como primeira camada. Ela foi dormir, levando junto a garrucha. Percebi que o seu quarto era do lado oposto ao fogão.
A essa hora, o único som que se ouvia era o da chuva nas telhas de zinco. O vento já tinha quase parado. Eu olhava para o teto me imaginado em qual ponto do globo terrestre estávamos. Apesar do conforto, acordei algumas vezes com frio, o que me fazia levantar para reavivar o fogo. Fiquei pensando naquele lugar quase mágico e aquela personagem interessantíssima. Foi uma experiência fascinante ter chegado ali, seja pelo destino ou acaso.


No outro dia, a chuva estava bem fraca e segui meu caminho. Antes a ajudei a carregar algumas coisas, consertar outras. Deixei um isqueiro, um recipiente com álcool que eu trazia e uma latinha com óleo desengripante. Descobri também que o cachorro chamava Cuiú. Na luz do dia, vi que dona Rosália tem olhos azuis e leves traços indígenas.
O tempo não conseguiu esconder completamente sua beleza da juventude. No fundo da cabana, as ruínas de uma carroça. Pouco mais à frente, uma horta muito caprichosa que ela cuida sozinha, a pouca distância da sanga, como se diz por lá. Fiquei feliz em ver que pelo menos fome ela não passava e silenciosamente pedi a Deus que lhe dê muita saúde. Continuando minha viagem, ao chegar em São Miguel dias depois desse encontro, conseguia então ver de uma forma muito particular aquelas histórias que ela contou. Isso me emocionou muito.
Hoje, relembrando de tudo, às vezes não tenho certeza se dona Rosália de fato existia mesmo.


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Sobre a exófora...

Naquela noite eu saí para pedalar um pouco mais tarde do que o de costume. A chuva forte que caiu já tinha praticamente passado e a cidade já começava a se preparar pra dormir. Peguei minha bicicleta e fui fugir da cidade.



No fim do asfalto, após as moradias simples e pequenas, cheguei a um imenso lixão a céu aberto. A rua não tem iluminação. Não tem asfalto. Nem nome tem. Mas tem gente. Vi, naquela hora da noite, perto do último poste de luz alaranjada, que alguma coisa se arrastava no meio da rua de lama e lixo. Parecia ser alguém. Com o avançar da minha bicicleta, percebi que usava roupas de frio surradas. Era uma pessoa. Ela puxava um carrinho de feira. Era uma senhora idosa que caminhava sozinha e muito lentamente naquela rua de lama e lixo. Apesar da recente chuva forte, persistiam fogueiras no meio do lixão. Duas coisas ficaram na minha cabeça: aquele cheiro forte de couro queimado e a lentidão do caminhar daquela senhora idosa.



Uma senhora, olhar cabisbaixo, dando um passo lentamente após outro passo, no meio da rua vazia. Mas pra onde aquela senhorinha estaria indo àquela hora da noite? Onde morava?
A bicicleta foi chegando perto, minha cabeça pensou tanto que parou de pensar. O único som que ecoava naquele lugar era o da catraca da minha bicicleta. Tac-tac-tac-tac. Me aproximei de forma que não a assustasse. Olhei bem pra ela, esperando que ela me olhasse e lhe disse um “boa noite”.
Ela continuou seu ritmo lento. Parecia não estar ali. Será que me ouviu? Nem ergueu a cabeça. Não mudou a expressão do rosto sem expressão, no meio da noite, no fim da cidade.  Eu também não tive reação, apenas passei. Quando olhei pra frente apenas ouvi ela me dizer: “É um trovão por dentro”.



Não falei mais nada. Não parei. A bicicleta continuou o seu tac-tac-tac e entrou na escuridão. Liguei minha lanterna e continuei meu caminho. Que estranho. Que palavras estranhas. Durante toda aquela trilha não pensei em outra coisa. Pensei nas palavras e naquela cena. Será que essas palavras foram apenas devaneios de uma pessoa que teve sua lucidez roubada? Será que fariam parte de um enigma, mensagem cifrada? Mas meu pensamento se fixou na tentativa de compreender a relação da cidade com aquela senhora.
Como na maioria das vezes eu pedalo sozinho, então eu não encaro o pedalar como um esporte e sim como um exercício mental. Vou andando por aí, vendo coisas e pensando coisas. Pra isso, tudo fora da cidade é ideal.



Pra mim, a cidade é a caixa de ressonância de todos os traços humanos. E, no meu entendimento, o traço mais fundamental de qualquer relação humana é a hostilidade. Qualquer relação humana é previamente hostil. Imagino que mesmo relações e sentimentos humanos agradáveis possuem raízes na hostilidade. E assim, qualquer cidade potencializa, em primeiro lugar, a hostilidade.



A cidade é o espaço irracional onde as patologias psicológicas são sacralizadas, legalizadas e firmadas entre as pessoas, que se aglomeram e se hostilizam mutuamente, porém observando determinada medida. Epidemia de gente. Para os cidadãos, o mundo inteiro consiste nas cidades. O espaço entre elas consiste no vazio, uma reserva técnica que, através da linha do tempo, será deglutido pela cidade. Parece que na equação da felicidade, quanto mais feliz, menos cidade. As cidades tinham tudo para serem legais. Mas são sufocantes.



Fico imaginando na história que aquela senhora poderia ter. "É um trovão por dentro". Será que sofre? Será que sente seu sofrimento? Houve escolhas? Merecimento? Opções. Acasos, destinos. Causas e efeitos. É assim que a cidade pensa: em causas e efeitos. Naquele mesmo lugar há várias outras pessoas e outros bichos, de todas as idades e várias histórias. O ruim não é a rua ser de lama, sem luz e principalmente sem nome. O problema é que, mesmo existindo tantos nomes, haja ainda aquelas ruas invisíveis.


domingo, 15 de junho de 2014

Sobre a Virtude...




É uma estrada. Já foi de ferro, hoje é de nada.
É um caminho abandonado, sem serventia humana, sem acesso, sem ligação.
Foi entalhada no vale de um rio que também hoje, tal qual a estrada, já não corre.
Suas bonitas paisagens, mesmo mutiladas nos últimos anos, ainda estão lá. A estrada corta florestas fechadas, que já foram bem exuberantes, mas ainda impressionam. Devido ao isolamento é fácil avistar bichos andando por ela. Catetos, iraras e bandos de guaxinins saem das moitas. Cascavéis se escondem embaixo das folhas de bambu, enquanto grande quantidade de pássaros passeia e canta pelas copas das árvores.
A luz amarela e suave da tarde penetra lateralmente pelas frestas das árvores, colorindo o chão de folhas e pedras.



Estava caminhando por ela nesta tarde. Andando sem pressa, respirando, ouvindo, vendo, pensando e fotografando. Bastante distraído. Já era final do dia, prestes a pegar o caminho de volta quando ergo o olhar e me deparo com um senhor, logo à minha frente.
Um senhor de barbas brancas, camisa de botão, um tanto surrada, mas bonita. Um aspecto meio cigano. Devia ter mais de 80 anos, montado em um cavalo. Apesar da idade, não tinha nada de decrépito. Chapéu preto tão velho quanto ele. Na garupa dele, uma menininha de no máximo uns quatro anos, descalça, cabelos pretos e longos, desgrenhados. Agarrada firmemente ao senhor, com rostinho colado nas suas costas.


Por algum motivo que não sei explicar, ele era o puro retrato da sabedoria. Ela, o puro retrato da inocência. Apareceram ali, não sei de onde.
Foram se aproximando, pensei que levaria uma bronca por estar em área particular. Respeitosamente o cumprimentei, ele retribuiu e parou para conversar. Sua voz, cansada pelos anos, era grave e firme.
Era um senhor simples, como tantos senhores que encontro e converso todos os dias.



Não sei se existe esse negócio de alma, mas se existir a minha soube na hora que eu estava diante de uma autoridade. Me falou poucas coisas, a maioria delas amenidades. Mas pra mim, essas amenidades me soaram como grandes lições, palavras de valor. Conversamos por breves minutos. Nos despedimos. Eles sumiram na floresta, da mesma forma como apareceram. Eu continuei meu caminho, mas muito impressionado, honrado e feliz. Ser bobo tem dessas vantagens: qualquer coisa impressiona. Pra mim é como se aqueles dois sempre foram parte desse lugar mágico. Esse encontro me fez ganhar bem mais que o dia.




quarta-feira, 26 de junho de 2013

Sobre a frusseria...


O chão de terra é tão sujo e poeirento que não se acha digno da pureza cristalina das gotas de chuva. Mas, mesmo assim, sonha com ela. Às vezes chega a sentir o cheiro dela. Vê, lá no alto, o vento levando as nuvens para lá e para cá. Mas nenhuma gota cai na terra seca. Ah como seria se a chuva pudesse descer de tão longe, vir de tão alto para brincar com a terra?


A terra tem vontade de encontrar com a chuva. De tão ansiosa e com a ajuda do vento, procura subir aos ares e quem sabe alcançar as nuvens e pedir um carinho da chuva.


Uma vez a terra já tentou aprisionar a chuva. Logo percebeu que aprisionada, ela não era mais a chuva, somente água. Desistiu do cativeiro e com isso fez nascer o regato e a cachoeira.


E desse jeito, no cerrado passam-se dias e noites e nada de chuva. O sol quente e a lua silenciosa passam e a terra somente espera. Nem chorar a terra pode, porque até o choro é chuva.


Uma vez a terra pôde perceber no vento que a chuva esteve ali por perto, mas foi embora. Chegou até escutar os trovões, que só apertaram a saudade. E com a seca, tudo vai diminuindo, menos a esperança. Seria menos doloroso se a esperança aprendesse a minguar também.


É noite de lua cheia. A noite é o silêncio onde todos dormem. A terra vermelha, com seus olhos secos, olha o céu. Espera, esfacelada em poeiras. Madrugada adentro, de vez em quando, aqui e ali, passam leves sopros do vento, que vem pé ante pé, mexer em alguns galhos secos, mas logo tudo torna a ser silêncio.


E, mesmo com todos dormindo, a terra, como em sonho, vê uma imagem que, aos poucos vai se convertendo num grande vestido, sorrateiro, correndo com inacreditável barulho por entre as folhas secas e galhos pontiagudos, que vão rasgando pedaços do pano e deixando fiapos por todos os lados.


É a chuva, com pés descalços, dançando sorridente na poeira. Sujando seus pés cristalinos com poeira. Milhares de pés. Milhões. Ela vem cantando alto, com a voz mais bonita que existe, espalhando sorrisos que reluzem na noite, como relâmpagos.



Vem batendo palmas de trovões, divertindo-se, segurando seu vestido branco, correndo morro abaixo, subindo em cima das árvores, abraçando os telhados. E finalmente, beijando com sensualidade a terra feliz, que vai virando barro. Então naquela madrugada a chuva dormiu tranquila e mansinha, protegida sobre o peito da terra bruta, que chorou de alegria.



O sol nasceu. Os bichos saem das suas tocas e encontram um amanhecer diferente. A terra acorda e procura as mãos da chuva, mas ela foi embora mais uma vez. Deixou muitos sinais de carinho e de força na terra que olha tudo com melancolia. Os pássaros cantam felizes e todas as plantas parecem dançar, mas nem percebem a tristeza da terra que nesta manhã ainda tem algumas lágrimas para chorar de saudade.



A chuva passou, deixou marcas e alimentou sementes que agora a terra terá que abrigar e cuidar.
É por isso que na lua cheia de maio dá pra ouvir o chão do cerrado uivando para a chuva, que parece ter se esquecido da terra e finge não ouvir o seu surdo lamento.



Ela passa ao largo, flerta com o sol, esconde a lua, brinca com o vento e às vezes até espalha o seu perfume, mas faz pouco caso com a terra estiada. Ao ouvir esse lamento surdo da terra, mesmo nos meses mais secos, em todas as manhãs o cerrado lança à terra o orvalho, na tentativa de reduzir a sua saudade da chuva.

domingo, 26 de maio de 2013

Sobre a senectude...




O ônibus parou. Eu desci, peguei minha mochila e minha bicicleta no porta-malas. A porta se fechou e lá se foi o ônibus embora.
Era uma manhã do mês de maio. Sul de Minas Gerais, o dia acabava de amanhecer. Estava nas proximidades de Três Corações, na bifurcação entre a estrada que vai para São Thomé das Letras (para onde seguiu o ônibus) e outra, bem menos movimentada, para São Bento Abade.



Minha vontade era chegar em Ribeirão Vermelho, por conta das belezas ferroviárias que ainda existem lá e que eu não conhecia. Para isso eu inocentemente contava que conseguiria pedalar até Ribeirão Vermelho e voltar para ainda dormir em São Thomé, num percurso total de 180km.



Para conseguir isso eu contava com a bicicleta, caronas que surgissem e muita vontade. Como obstáculos conscientes, além da longa distância, eu tinha um percurso por estradas rurais que eu nunca havia passado e nem conhecia ninguém que tivesse feito isso. Também tinha que pedalar pela Fernão Dias, rodovia que eu conhecia dirigindo moto e carro. Mas de bicicleta tudo muda de figura.



Além desses obstáculos, eu tinha vários outros que me aguardavam e eu nem imaginava.
Na minha mochila eu levava um pacote de bolachas, câmera fotográfica, uma lanterna de cabeça, um mini-estojo de ferramentas, nenhuma água e nenhuma roupa de frio, que são duas coisas que não considero primordiais aqui no cerradão do Triângulo Mineiro. Água aqui no cerrado é muito fácil encontrar. E o frio pode ser forte, mas nunca é insuportável. Se ele apertasse, bastava eu pedalar mais pra esquentar. Era o que eu achava. Seja como for, é preciso dar espaço para o imprevisível sem dar sorte para o azar.



Subo na bicicleta e fui enfrentar o desconhecido. Situação que pra mim é muito prazerosa. Descubro que dali até São Bento Abade são apenas 6 quilômetros, com algumas subidas fortes, mas tranqüilas.
São Bento é bem pequena e configura-se em forma de um retângulo estreito e comprido, margeando a estrada, que chega na parte alta da cidade e vai descendo até um riacho, que é o fim da parte urbana.



Tiro algumas fotos, puxo alguma conversa, visito a igreja, faço uma oração e continuo minha jornada. O asfalto acaba e começa uma estradinha tortuosa, com várias subidas e descidas. Até chegar a Fernão Dias são apenas 25 km por um sobe-e-desce em estrada de terra. Essa região possui paisagens muito bonitas, com morros, riachos, casarões antigos e vou parando em tudo o que eu tenho vontade.




A parte ruim é que não posso aproveitar as descidas para embalar, porque no final de todas elas, há mata-burros longitudinais (que em mineirês se diz "de comprido"), me obrigando a passar em baixa velocidade, sem aproveitar o embalo pra subir.




Fico atento para encontrar sinais ferroviários da antiga Rêde Mineira de Viação. Olhando os mapas, eu deveria passar perto da estação de Salto, poucos quilômetros antes de cruzar os trilhos. Mas depois de uma grande descida, encontro os trilhos prematuramente e logo depois, um senhor a cavalo.



Pergunto sobre a estação, ele me disse que eu teria que subir a estrada de volta. Quando comecei a regressar, veio um ônibus novinho com apenas dois passageiros, parou e me perguntou se eu queria carona. Situação muito estranha, um ônibus novinho numa estrada como aquela e parou sem eu pedir carona. Resolvi aceitar e deixei a estação para outra oportunidade. O ônibus me fez ganhar um tempo precioso, evitar uma bruta subida (por isso que devem ter oferecido carona) e me deixou dentro da cidade de Carmo da Cachoeira. Tranco a bicicleta, mas tenho certeza que nem precisava, a cidade é muito tranquila e fica às margens da Fernão Dias. Percorro algumas ruas do centro que tem belos casarões, faço um lanche e volto para a estrada.



De Carmo até o trevo para Lavras faltavam ainda uns 30 quilômetros. Mas pedalar na rodovia, apesar da facilidade do piso, é muito ruim. A via é duplicada, de intenso movimento. Há muitos caminhões em alta velocidade que trafegam pelo acostamento por causa das curvas fechadas. A medida mais prudente é andar pelo acostamento da contramão, mas como as vias são separadas por canteiros e divisórias de concreto, fazer isso seria abrir mão de alguma carona que por ventura surgisse.



Fui pedalando, olhando mais pra trás do que pra frente, desviando de destroços de pneus estourados, peças de caminhões, pedaços de pau, pedras. Nem percebi que havia pulado mais uma estação, bem do lado da rodovia: a estação de Carmo da Cachoeira, que fica fora da cidade.
Mas percebo que se aproxima um ônibus tipo escolar, já um pouco velho. Desço da bicicleta e peço carona. O ônibus pára. Não há porta-malas, a bicicleta teve que ir dentro, junto com os poucos passageiros, que até me ajudaram a subir. A viagem continuou, mas o som constante do motor barulhento dáva a impressão de que iria demorar mais de ônibus do que pedalando. Demorou também alguém me fazer alguma pergunta. Era um ônibus de prefeitura, com mineiros bem típicos: gente simples, muito desconfiada. Mas não é difícil quebrar essa barreira e puxar assunto. Conto sobre minha aventura, recebo primeiro muitos desincentivos. Mas depois, começam algumas dicas, recomendações e nomes a quem recorrer, em caso de necessidade. A viagem flui e logo chega o trevo em que devo descer. Paro e o ônibus segue o caminho dele e eu, o meu. Agora saio da Fernão Dias faltando só 15 quilômetros até Ribeirão. Começo de estrada meio difícil de pedalar, muito movimentada e perigosa porque dá acesso a uma cidade grande, que é Lavras.
O calor e o sol da tarde estavam fortes, desisto de tentar carona e vou para a contramão pedalar no acostamento com mais segurança. Muitas subidas, descidas, entradas, morros, placas. E a saída para Ribeirão, que nunca chega? Finalmente chego na que indica a entrada de Ribeirão Vermelho, que traz a distância de 5km.


Foram 5km de uma forte e longa descida que acaba dentro da cidade. Lá de cima, naquela distância, já dá pra ver a imensa rotunda. Já me sinto com a missão cumprida, só de ver esses prédios ao longe. Fiquei imaginando a volta, iria demorar um tempão subindo aquilo tudo. Os trilhos aparecem à minha direita, assentados sob um pequeno aterro, provavelmente por causa das inundações. A cidade é muito tranquila e de repente chego na ponte rodoferroviária sobre o Rio Grande.


Já era 15hs. Na ponte, que comporta apenas uma mão de direção, há um semáforo que controla os carros que vão, os que vem e, algumas vezes por dia, os trens de carga. Quando o semáforo abriu para o meu lado, tive que ir à frente de todos os carros. Todos têm muita pressa, porque há pouco tempo antes que o semáforo feche de novo. Pensei em fotografar essa travessia, mas não dá, porque além da pressão dos carros que vêm atrás, tenho que prestar atenção para não deixar o pneu da bicicleta entrar em uma das frestas longitudinais da ponte.




O lugar é de fato muito bonito e não dá pra acreditar que o Rio Grande, que naquele ponto de grande só tinha o nome, conseguiria inundar todo aquele vale, muito aberto. Há muitos prédios em ruínas, espalhados, e tenho dificuldades em entender como aquilo tudo funcionava. Vou visitando essas ruínas em cima da bicicleta mesmo e fazendo fotos rápidas. Converso com alguns funcionários da prefeitura na estação.




15:30, torno a pegar a estrada, agora fazendo o caminho de volta. Subo até a estrada de Lavras mais rapidamente do que imaginava. Minha esperança é conseguir uma carona que me deixe ao menos em Carmo da Cachoeira. Mas ninguém pára. Quanto mais o tempo passa, mais difícil fica, é todo mundo cansado, querendo voltar pra casa ao mesmo tempo. Chego na Fernão Dias no final da tarde. A coisa começa a complicar. Lusco-fusco, acabaram-se as chances de carona. O acostamento começa a ficar mais perigoso. Passo para a contramão, para ver os carros vindo de frente e foi uma boa idéia. Coloco a lanterna na cabeça e vou pedalando no canto do acostamento. Mas é muito difícil, os faróis dos carros ofuscam a visão, não consigo enxergar ao mesmo tempo os carros e o lugar aonde estou passando, cheio de armadilhas, valetas, pneus, muretas. Para me enxergarem com mais facilidade, os carros e caminhões ligam o farol alto, mas não percebem que isso me deixa cego. Como se não bastasse, vez ou outra vem algum caminhão disputando espaço no acostamento comigo e nem sempre tenho para onde sair. Não faço idéia de quanto ainda falta andar naquela rodovia e o barulho, a quantidade e velocidade dos carros parece aumentar cada vez mais. Muito sufoco.



O esforço psicológico é tremendo. Não reconheço a estrada, chego a imaginar que passei do ponto aonde deveria deixar a rodovia e pegar a estrada de terra. Sons, luzes, distância, cansaço. O frio foi aumentando. Não aguentava mais pedalar na rodovia. Várias horas se passaram até que ao longe vejo alguns carros de polícia parados. Vou seguindo a sinuosa rodovia até chegar lá. Era um caminhão tombado bem no ponto que eu deixaria a rodovia para tomar a estrada de terra.



Era um pouco depois das 21hs. Finalmente a estrada de terra, sem carros ou faróis. Agora vem uma descida muito, muito longa, aquela mesma que o ônibus me poupou. Eu de camiseta molhada de suor, bermuda, de noite no mato. No cerrado pelo menos o frio é seco, mas aqui no sul de Minas, não. Tenho dificuldades em usar o freio, as mãos estão ficando muito duras. O frio começa a ficar preocupante. Como é descida, não dá pra exercitar e vou sentindo cada vez mais frio. Depois da descida, aparece uma subida, me esforço, mas não adianta: minhas roupas estão geladas.  Minha respiração condensa, vou perdendo mais ainda a sensibilidade das minhas mãos, não sinto os dedos mexendo. O céu estava muitíssimo estrelado. Belíssimo. Esqueço a estrada, paro pra tirar umas fotos, mas não consigo. Apesar da beleza da noite, estou tremendo bastante. Quanto mais parado eu fico, mais o frio domina. O tempo está se esgotando e a temperatura cai rapidamente.




Subidas e descidas vão se sucedendo e tanto uma quanto a outra são muito ruins para a minha condição. Meu estômago começa a embrulhar, mas ele está vazio. O mal-estar vai ficando maior. Não consigo mais pedalar, não dá. Desço da bicicleta e vou empurrando. Mas cada vez que me mexo, pior me sinto, só que se eu ficar parado vou congelar. Não há sinal de nenhum lugar ou alguém a quem recorrer ou chamar. A única coisa que consegui fazer foi tirar a bicicleta da estrada, me deitar no mato molhado e gelado, ao lado da estrada de terra vazia, silenciosa e escura. Só ouço o vento passando nas folhas. Somente o vento e o meu pulso, ambos cada vez mais longe.




Acordo com alguém me sacudindo.  Procuro, assustado, saber quem é, mas percebo que foi meu próprio corpo tremendo forte de frio que me acordou. Não faço idéia de quanto tempo fiquei ali. Estou um pouco melhor, já consigo pedalar e ignorar o frio. O céu da minha boca está com sensação de queimado, sem sensibilidade.
Lá muito longe começo a ver as luzes amareladas de São Bento e me animo um pouco. Mantenho a persistência, foco meu pensamento somente na tarefa de mandar energia para as pernas. Preciso chegar vivo lá e aproveitar enquanto posso.




Depois de algum tempo, entro na cidade silenciosa e parada. Não sei quantas horas é, mas vejo que ainda há um cômodo de comércio aberto. Percebo que é um pequeno barzinho, na subida perto da igreja. Me arrasto até lá, sem conseguir pensar direito. Me sento e sob olhares muito preocupados da dona, peço um refrigerante de 2 litros e um sanduíche. O refrigerante consegui ir bebendo aos poucos até acabar. Mas o sanduíche, só consegui dar uma pequena mordida e voltei e me sentir mal. Guardei para depois.
Pergunto sobre hospedagem, explico a minha situação e a moça me instrui a ir até o único hotel da cidade, pouco adiante. Não há pensão, albergue ou qualquer outro lugar de hospedagem.


Chamo no interfone e uma voz com sono atende. Pergunto se há vagas e a pessoa foi até a porta me atender. Expliquei que precisava de uma vaga só até amanhecer, quando continuaria minha jornada até São Thomé das Letras. O proprietário me informou que o hotel estava lotado porque uma romaria religiosa estava passando por lá naquele dia. Eu tento convencê-lo a me deixar dormir em algum canto, corredor, sala, cozinha, etc, porque estava somente com aquelas roupas de verão molhadas e não conhecia ninguém na cidade. E pagaria a diária adiantado. O cara, sem pestanejar reafirmou que não tinha vaga. Boa noite. A porta se fecha. Entendo a situação dele.



Arrastei minha bicicleta até a saída para São Thomé. Dáva pra ver as luzes da cidade vizinha, lá em cima do morro. Não estava longe, faltava apenas 20km. Mesmo empurrando a bicicleta o tempo todo, acho que gastaria 4 horas. Lá estava meu quarto de hotel, cama e cobertor quentinho, banho quente, janta e minhas roupas limpas me esperando.
Mas eu tive medo de passar mal mais uma vez no meio do nada. Tento carona, até que um ou outro carro passam, mas no meu estado físico e com uma bicicleta, sem chance.
Depois de algum tempo tentando, torno a descer a avenida completamente vazia até chegar na rodoviária. Tranco a bicicleta num canto, encostada na parede e me deito no chão embaixo dela. Não via sinal de ninguém na rua. Ventava muito frio, o chão queimava. Não dáva pra dormir.
Fui até os lixos, achei dois grandes pedaços de papelão. Com um deles forrei o chão e com o outro me cobri. Consegui dormir facilmente.



Acordei com fome e peguei o sanduíche que estava guardado. Comi tudo, fui tirar água do joelho e quando retorno à minha “cama” vejo um cachorro dormindo nela. Não sei de onde ele veio, mas está tão frio que fico com pena dele. Deixei aquele papelão pra ele e dormi no outro, sem me cobrir.
Acordo com os primeiros sinais da claridade, já estou melhor e consigo pedalar. Há um outro cachorro dormindo nos meus pés. Aquele primeiro sumiu e nem percebi esse outro chegar. Destranco a bicicleta, pego a estrada e, apesar do frio, vou me aquecendo rapidamente. As cores do dia nascendo dão uma violenta injeção de ânimo.




Vou vencendo quilômetro por quilômetro, subida após subida, até chegar em São Thomé das Letras. Reencontro as pessoas do ônibus, mas nem dá pra contar direito a minha aventura. Os ossos do meu rosto doíam bastante e permaneceram assim por uns dois dias. Na noite seguinte, mesmo dentro do quarto, com duas cobertas grossas e dentro do meu saco de dormir, passei muito frio, talvez fosse o corpo cobrando a conta da noite anterior. O céu da minha boca continuou queimado, sem sensibilidade e ficou assim por mais de duas semanas. Meu rosto também ficou queimado pelo frio. Alguns meses depois percebi que todas as minhas unhas das mãos tinham um vinco/relevo que julgo terem sido feitos nesse dia.
E, apesar de tudo, valeu a experiência. Pra gente teimosa tem coisa que não adianta falar, tem que aprender na própria pele.