sábado, 4 de março de 2017

Sobre a Rosália...


Apesar do inverno rigoroso do sul do Brasil e da chuva persistente, as paisagens eram exageradamente bonitas. Cruzar a solidão daqueles campos infinitos, completamente sozinho, em condições climáticas severas e sem um destino racional mexeu bastante comigo. Muitas vezes eu me sentia como se a minha razão estivesse desligada e essa sensação era maravilhosa e emocionante.


O dia já estava se encerrando e a estradinha ruim foi piorando muito. Terreno pedregoso e enlameado, sem sinal de casas ou povoados por perto. O cansaço já me atingia com toda força. O frio molhado e o tal do minuano tornaram-se ásperos. Meus pés estavam prestes a congelar. As mãos estavam duras.
Tarde demais percebi que aquela estrada estava abandonada e ficando muito perigosa. Caso eu me acidentasse, teria que esperar dias por alguma ajuda. Depois de uma curva escorreguenta de quase 180º, por onde corria um riacho, logo adiante percebi uma casinha de madeira, abandonada entre árvores baixas.
A luz do dia já tinha quase acabado. Este seria um bom lugar para dormir e isso me animou. Então, senti cheiro gostoso de lenha queimando. Havia gente morando naquelas lonjuras! Pensei em parar e pedir informações, porém não vi nenhuma luz acesa.


Ao passar em baixa velocidade devido ao terreno barrento e pedregoso, vi uma senhora em pé na varanda. Cumprimentei-a com um gesto, mas parece que ela não respondeu. Continuei o percurso no instante em que ela falou alguma coisa comigo. Parei a moto e morri de medo: ela estava com uma garrucha na mão?


Eu devia ter entrado aonde não poderia. Mas não consegui retornar, o barro e a estrada estreita e inclinada me impediam de virar. Ao colocar o pé no chão, quase levei um tombo. Era só o que me faltava: molhado, cansado, perdido, com muita fome e ainda levar um tiro por ter invadido uma propriedade particular.
Não teve jeito, tive que desobedecê-la e prosseguir por uns metros até conseguir voltar para pedir desculpas e informações. A senhorinha, a garrucha e agora seu cachorro grandinho e silencioso continuavam na varanda. Tirei o capacete pra conversar. Ela me informou, num sotaque carregado, que a estrada havia mudado fazia alguns anos e que ninguém passava mais por ali. Explicou que eu teria que voltar uns 35 km até retomar a estrada principal. Dali para frente, a estrada acabava num arroio e que não era bom ficar "campeando" nesse tempo.


O desânimo bateu com força. Estava exausto! Havia dias que estava naquelas lonjuras, no gelo do inverno e com roupas molhadas que não secavam nunca. Era noite, retornar naquela estrada difícil e perigosa me assombrava. Agradeci à senhora pela informação. Quando fui colocar o capacete para continuar, meu pé escorregou e fui para o chão, com moto e mochila cargueira. O cachorro, até então silencioso e imóvel, veio latindo com tudo e nem reagi. Mas ele só me cheirou. Ergui a moto e fui buscar o capacete, que acabou indo longe. Nessa momento, a senhora falou que era melhor que eu "saísse da chuva e seguisse no outro dia".
Advertiu que em pouco tempo a temperatura iria cair ainda mais e que eu ficaria "embreteado". Agradeci. Meus joelhos estavam congelados. A moto teve que ficar lá na estrada mesmo, nem me atrevi a subir com ela o barranco em que a casa se assentava.

Só então vi que a casa era pequena, praticamente uma cabana. Plantinhas em infinitos vasos ocupavam grande parte da varanda. O som da chuva e do vento no telhado de zinco formava uma atmosfera até interessante, mas também demonstrava a fragilidade daquela construção. Raspei o barro dos pés numa pedra posicionada para isso.
Dentro da casa, tudo muito limpo e muito organizado, porém bastante escuro. A única luz vinha de uma lamparina fumacenta e fraca, perto do fogão. O vento entrava por entre as frestas, que eram muitas. Poucos móveis, um baú, couros que me pareceram de ovelha. Simplicidade reinava. O cachorro também entrou, recolheu-se numa caixa no cantinho e não saiu mais de lá. Fechando a porta, ela disse que eu poderia colocar minhas coisas perto do fogão para ir secando e voltou às panelas que borbulhavam cheiros maravilhosos. Tentei oferecer alguma ajuda, mas um silêncio constrangedor foi a resposta. Na tentativa de puxar uma conversa, comecei a contar de onde eu vinha e o que fazia por ali. Ela não falava quase nada. Não consegui perceber se ela me ignorava ou se a sua mente também borbulhava. Instantaneamente, imaginei o quanto seria difícil aquela noite.
De onde eu estava vi, junto à imagem de uma santa, algumas fotos antigas, provavelmente dela e de sua família. Não me atrevi a perguntar nada sobre suas memórias. A luz pouca e a imaginação muita iam desenhando aquela casa que tinha uma atmosfera estranha. Era como se eu estivesse dentro de uma garrafa de náufrago. 
Com o passar dos primeiros instantes, pouco a pouco sua expressão foi se iluminando. A casa foi se aquecendo e meu monólogo foi se tornando uma conversa. Chamava-se Rosália. Morava há muitos anos nesse local, onde quase ninguém passava.

A janta ficou pronta. Abriu uma gaveta, tirou uma toalha e forrou a mesa. Colocou os pratos de uma forma que me pareceu ritual. Desapareceu no escuro de um cantinho perto das lenhas. Voltou de lá com um garrafão de vinho, dizendo ser "água-benta de beber despacito".
No começo ela me fez algumas perguntas, mas logo era somente ela que falava.
Dona Rosália era uma impressionante senhora de mais de 80 anos, plenamente ativa. Era visivelmente uma mulher valente. Usava gorro de lã, uma espécie de chale de lã sobre os ombros, meias grossas e chinelo. Não fazia nada com dificuldade. Começou a contar muitas histórias. A família dela e do finado marido foram proprietárias de muitas terras. Antigamente aquela região era muito movimentada e próspera. Todos sonhavam com um futuro promissor.
Só que a vida mudou todas as peças do tabuleiro e hoje ela possui apenas aquela casinha. E assim, o único contato que tem com a civilização é a passagem do leiteiro, três vezes por semana, do outro lado do arroio. Era impressionante como uma senhora idosa, esquecida por todos, ficasse sozinha, virando-se como podia!
A sensação era de que Dona Rosália havia caído numa fenda do tempo, ou até fosse uma personagem criada pela minha imaginação. Quem sabe era eu quem teria caído da moto, batido a cabeça e estivesse delirando em algum confim dos pampas?

E foi contando histórias dos tempos antigos, de disputas políticas e rurais, de como era a vida das pessoas até então. Cada palavra retumbava na minha mente, cada idéia se repartia em muitos significados. Era uma mulher muito sábia e inteligente. Lamentava-se do esquecimento do mundo rural, considerava que isso era até mesmo um erro de estratégia nacional. Entendi que neste ponto talvez estivesse a chave do que a manteve ali, naquela reclusão.
Contava tudo num sotaque carregado. Era quase um espanhol, por vezes divertido, com muitas palavras desconhecidas, típicas da região entre o Rio Grande do Sul e o Uruguai.
Ela contava sobre acontecimentos bastante relevantes, que acho que jamais foram escritos e talvez nunca o serão.
Pelo modo como falava, creio que há muito tempo não conversava com ninguém. Difícil esquecer o instante em que ela ficou olhando a luz do fogão. Depois falou,
com voz de tantos anos vividos, como se a sabedoria pudesse se impregnar no som da sua fala: "viver é ofício da despedida".


A janta estava ótima. Vinho muito bom, queijo, arroz, salame que me pareceu artesanal, cenoura, molho com outros ingredientes deliciosos que não reconheci. Terminada a janta, ela recolheu os pratos e em seguida me pediu para colocar uma espécie de sofá de madeira perto do fogão para eu dormir.
Forrou com vários panos e cobertores, cada tipo com um nome local que infelizmente não conservei. Fiquei um pouco envergonhado, porque limpo eu não estava e banho passava longe dos meus planos naquele momento. Por isso, usei meu saco de dormir como primeira camada. Ela foi dormir, levando junto a garrucha. Percebi que o seu quarto era do lado oposto ao fogão.
A essa hora, o único som que se ouvia era o da chuva nas telhas de zinco. O vento já tinha quase parado. Eu olhava para o teto me imaginado em qual ponto do globo terrestre estávamos. Apesar do conforto, acordei algumas vezes com frio, o que me fazia levantar para reavivar o fogo. Fiquei pensando naquele lugar quase mágico e aquela personagem interessantíssima. Foi uma experiência fascinante ter chegado ali, seja pelo destino ou acaso.


No outro dia, a chuva estava bem fraca e segui meu caminho. Antes a ajudei a carregar algumas coisas, consertar outras. Deixei um isqueiro, um recipiente com álcool que eu trazia e uma latinha com óleo desengripante. Descobri também que o cachorro chamava Cuiú. Na luz do dia, vi que dona Rosália tem olhos azuis e leves traços indígenas.
O tempo não conseguiu esconder completamente sua beleza da juventude. No fundo da cabana, as ruínas de uma carroça. Pouco mais à frente, uma horta muito caprichosa que ela cuida sozinha, a pouca distância da sanga, como se diz por lá. Fiquei feliz em ver que pelo menos fome ela não passava e silenciosamente pedi a Deus que lhe dê muita saúde. Continuando minha viagem, ao chegar em São Miguel dias depois desse encontro, conseguia então ver de uma forma muito particular aquelas histórias que ela contou. Isso me emocionou muito.
Hoje, relembrando de tudo, às vezes não tenho certeza se dona Rosália de fato existia mesmo.


2 comentários:

  1. Me aventurei na sua aventura, criei dona Rosália, sua cabana e seu cachorro... vi vc com toda sua humildade se sentindo o cara mais rico do mundo por ter vivido isso... muito bom saber disso tudo, das suas enrascadas e vivenciar algumas( na pele). Outras apenas através da leitura e imaginação. Parabéns nobre amigo.

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  2. Texto maravilhoso Glaucio. Uma riqueza de detalhes que leva ao lugar e sentir todas as sensações vividas. Parabéns pela aventura. Abração

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