quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Sobre as antíteses...

(continuação do post anterior, Sobre o Argos... )
O dia nasceu. Acho que de tanto eu rezar pra que saísse um sol que aliviasse o peso das coisas molhadas na mochila, veio um dia bonito, surpreendente. Nasceu um sol de rachar nesse primeiro dia de 2009, que em nada me lembrou a noite anterior. Acordo bem descansado, não sei quanto tempo eu dormi, não foi muito mas me foi suficiente. O rio está calmo, mas muito barrento. Aproveito e desfaço rápido a barraca, porque o sol vem com tudo. Calço os meus coturnos, mas não foi nenhum sacrifício, dáva pra andar, apesar de tudo. O cheiro do mato molhado me anima.



Coloco a mochila nas costas e volto em direção à ferrovia, única estrada ali por perto. Sei que não  posso andar demais porque meus pés continuam machucados. Mas estão bem melhor que ontem.
A floresta agora em nada se parece com a angústia de ontem e assim consigo atravessá-la e alcanço os trilhos facilmente. Como essa ferrovia foi construída nos tempos das maria-fumaças, calculo que a próxima estação não poderia estar tão longe. Elas eram separadas umas das outras por 12km em média, porque essas locomotivas tinham que reabastecer suas caldeiras constantemente. Em trecho de serra então, essa distância era bem menor. Julgo que a próxima estação tem grandes chances de estar mais perto do que aquela que eu passei ontem.



E assim faço: achei melhor não pegar os trilhos voltando e sim indo em direção à estação seguinte. O sol foi subindo, jogando sua força. O calor que já sobe do lastro ferroviário começa a sufocar. E a ferrovia agora está fugindo do rio, subindo cada vez mais para reconquistar o planalto. E sobe muito forte. Vou contando as plaquinhas de quilômetro e a cada três eu paro para trocar as coisas molhadas de lugar para que sequem e fiquem leves. E é claro, aproveito pra descansar. Mas logo resolvo reduzir as pausas para dois quilômetros. A caminhada já está rendendo menos.



Os quilômetros vão se passando, cada vez mais devagar. Conforme eu gasto minhas forças subindo, as árvores e sombras gostosas vão ficando pra trás, no vale verde do rio. A ferrovia agora entra num terreno plano onde a agricultura arrancou toda a vida, transformou tudo em soja. Uma paisagem bonita e triste. Verde. Muda. Quente. Térrea. O vento ventando quente. Nem vejo sinal de nada no horizonte. Nenhuma antena que pudesse indicar cidade por perto. Muito menos a estação. E o pior, nem algum sinal que indicasse existência de água.



Calor. Muito, muito calor. Eu suporto o frio, a fome e até a sede por muito tempo. Mas o calor me extenua rapidamente. Me arrependo por ter pedido que o dia amanhecesse quente para secar minhas coisas. E tenho agora muita vontade que chovesse. Não me importaria que a mochila ficasse ainda mais pesada com a chuva. Nem que sentisse frio. Pelo menos a água refrigeraria meu corpo. Engraçado como a vida é frágil, e pra ela existir precisa de um monte de requisitos bem específicos, todos na medida exata. Será quanto tempo eu poderia ainda andar naquela paisagem monótona de soja e trilhos?
Aparece uma árvore. Grande, mas de folhas ralas. Até a sombra é quente. Jogo a mochila no chão, tiro a camiseta e bebo o pouco de água que ainda tinha. A água estava muito quente. Deve ser meio-dia, talvez mais. A parada não me refrescou em nada.



Continuo caminhando e apareceu agora uma estrada de fazenda que cruza os trilhos e vai embora. Prefiro continuar pela ferrovia. Olho pra cima e vejo o sol. Bem que podia chover. Quero água. O calor só vai piorando cada vez mais. Aí começa a bater um vento ainda quente, mas com cheiro diferente. É chuva vindo, mas não há sinal de nuvens. E agora já vejo bem longe o que pode ser uma torre de celular em meio à uma mancha verde que talvez sejam eucaliptos. A ferrovia vai pra lá. Só pode ser o lugarejo que procuro. Uma outra estrada de terra aparece e vai paralela aos trilhos. Bom sinal. Vou caminhando por ela, por ser mais confortável de pisar. O vento fica cada vez mais frio e nuvens muito baixas já começam a encobrir o sol. Que alívio. Vai chover. E não demora, vejo a chuva chegando. É bonito ver a massa branca vindo na plantação, mas agora já queria que desse tempo de chegar no vilarejo antes de ser pego pela chuva. Não vai dar. A cortina d'água vem com tudo, molha tudo com violência. A água chega, passeia pelo meu corpo e pelo meu pensamento. Continuo andando. E por mais contraditório que pareça, me bate um pouco de medo, porque a chuva está ficando cada vez mais forte.



Já estou mais perto dos eucaliptos e vejo que embaixo deles há um caminhão pipa, pingando água. Apesar da chuva, continuo com muita sede. Pouco me importa se os eucaliptos podem ser perigosos na chuva. Pouco me importa se o que pinga do caminhão é água mesmo ou agrotóxico. Estou com muita sede, nem penso no veneno. Quando me abaixo para pegar a água que verte do tanque, a porta do caminhão se abre e de lá vem uma bronca. Apesar da chuva torrencial, o homem grita para que eu não beba, é veneno. Aí vou até ele para explicar que estava com muita sede, e para saber que veneno era aquele. Lá de cima da cabine ele me oferece uma garrafa daquelas térmicas de 5 litros. Mas como eu estou com a mochila nas costas há muitas horas, com suas alças reduzindo a circulação de sangue nos braços, com muito cansaço acumulado, ao pegar a garrafa, ela por muito pouco não foi ao chão. Ela pesou demais, meus braços não obedecem direito. Não conseguia erguê-la para beber. E para mim era engraçado. Mas o rapaz do caminhão não achou graça, desceu na chuva e começou a me fazer um monte de perguntas, nitidamente preocupado com minha situação física. De onde eu vinha, o que fazia, se estava sozinho, se já tinha almoçado. Eu vou respondendo as perguntas e bebendo água. A chuva vai parando. Eu vou matando a sede. Pergunto se o tal lugarejo que eu procuro estava perto e ele me disse que estava a poucos quilômetros a frente. E também disse que iria me dar uma carona até lá, já que não adiantava mais pulverizar a plantação. Agradeço pela água. Entro no caminhão, mesmo estando com as roupas ensopadas porque ele disse que não havia problema.



Vamos conversando e na estrada, uma grande jibóia atravessando. Antes de eu tentar interceder por ela, num segundo ele já vem com um discurso de que cobra é tudo ruim, que ele sempre mata mesmo. E no próximo segundo, desvia o caminhão e passa em cima dela. Eu olho pra trás e a vejo se retorcendo. Que situação ruim. Nem tenho como falar nada, nem deixo transparecer qualquer sentimento meu, nem a favor e nem contra a atitude. A verdade é que ver a cobra sendo atropelada foi pior do que todo sofrimento que passei hoje. Penso um pouco sobre o quanto é patente a relatividade da culpa nas mais diversas situações. Tão relativa que em qualquer caso pode ser total e ao mesmo tempo inexistente. Mas tudo bem, deixa pra lá, aconteceu tudo muito rápido e é melhor manter a mente em boa vibração. Acaba que morte e vida são a mesma coisa.



Chegamos no vilarejo. Eu já tinha ido lá outras vezes, porém por outros caminhos. Pra mim continuava igual. Agradeço a carona, me ajudou demais, já me sinto mais animado a continuar. Porém, ele diz que está indo até uma venda e lá paramos. Descemos do caminhão. Ele vai falar com a mulher da venda. Escuto dizer pra ela anotar tudo o que eu consumisse, que eu ainda nem tinha almoçado e já vai saindo da venda, se despede e fala pra eu almoçar tranqüilo. Agradeço demais, mas aviso que não posso aceitar, por vários motivos: falo que tenho dinheiro suficiente pra comer, que isso era na verdade um passeio, que vim pelos trilhos de propósito, que eu estava era conhecendo o caminho, que sou acostumado a fazer isso. Mas ele parece não ter acreditado, entrou no caminhão e foi embora.



Comida servida, vou comendo bem devagar. E vou pensando nessa história do pagamento e estou decidido a acertar a conta com a dona. Percebo que ela fica curiosa, com vontade de conversar comigo, mas outros clientes toda hora pedem alguma coisa. Vou mastigando e pensando que devia ser bem difícil pra alguém entender que eu fazia essas caminhadas de propósito. Que não era por nenhuma "precisão" ir de uma cidade até a outra, que não era promessa, que ia só pra passear. E ia a pé por gosto mesmo. E que faz parte do desafio levar só poucos reais. E pensei na atitude do rapaz do caminhão. Ele se sentiu feliz em poder ajudar. E como o almoço com refrigerante ficaria em menos de R$4,00, achei melhor deixar a mulher anotar, acho que eles se sentirão melhor assim. E eu também.



A chuva passou tão rápido como chegou e agora tenho que continuar meu caminho. Pegar a estrada é sempre muito prazeroso. Tem algo de renovação, de nova chance, página em branco. Já devia ser por volta das 16hs, o sol já brilhava forte de novo, porém bem mais amigável. Era o sol que eu gostava. A minha cidade ainda estava muito longe. E já admito que não conseguiria voltar pra casa ainda hoje. Vou caminhando e deixando a cidadezinha pra trás, deixando as coisas acontecerem como deveria ser. Mas do jeito que meus pés estão uma carona seria muito bom. O problema é o baixo movimento daquela estrada de terra. Minha saída é caminhar até chegar numa rodovia asfaltada a cerca de 20 quilômetros a frente. Vou tirando umas fotos da chuva pesada indo embora lá longe no horizonte.



Nisso passa um ônibus. Peço carona, sem muita esperança. O ônibus passa e vai embora. Mas uns cem metros lá na frente pára. Será que é pra me dar carona? Quanto será a passagem? Corro até lá e já vou organizando uma história na cabeça para pedir isenção ou abatimento na passagem. A possibilidade de não ter que caminhar tanto e economizar os pés vale a pena. Fico muito feliz, consegui a carona. Entro e agradeço ao motorista. Mas só quando entro é que vejo que a minha realidade não é a mesma de um montão de gente. Não é um ônibus de linha. É reveillón. É um ônibus de bóias-frias. E enquanto eu estava me divertindo, por opção minha, tinha muita gente se matando em alguma lavoura, por obrigação. Todos me olhando. Sorrio e enquanto vou indo pro fundo do ônibus, passo cumprimentando alguns com a cabeça, que me respondem com o mesmo gesto, porém de forma bem mais pesada. Estavam mais sujos do que eu. Acordaram muito mais cedo do que eu. E pareciam estar com o pensamento muito longe daquele ônibus. O único som era o motor do ônibus. Me sento do lado de um e logo puxo papo, acho que como auto-defesa. Descubro que quase todos eles são maranhenses e uns poucos pernambucanos. Eles se matam de trabalhar por três meses na safra aqui, enquanto lá não tem oportunidade de trabalho. Por isso trabalham no natal, ano novo, sábado, domingo, enquanto dão conta, enquanto há safra. Depois retornam. Trabalho puxado que poucos daqui querem fazer. E vi que havia algumas mulheres também, com cabelos escondidos nos bonés e formas ocultas sobre as roupas masculinas.



Converso sem querer dar pistas de sentir pena deles. Não sinto. Quero é entender o cotidiano deles e não ouvir desabafos. A conversa vai ficando muito boa e a medida que eu conto do meu dia e ouço do dia deles aqui e lá no Maranhão, mais gente vai entrando na conversa, cada um contando mais coisas e ouvindo outras. As vozes vão ficando mais altas, empolgadas. Agora há risos. O ônibus agora entra na rodovia asfaltada. Mas vira pro lado oposto ao que eu deveria ir. Só então percebo que esqueci de perguntar pra onde eles estavam indo. Agora é tarde, deixa pra lá. Continuo a viagem com eles. O papo está muito animado e de repente vejo um trevo de entroncamento com outra rodovia e tenho uma idéia. Rapidamente vou até o motorista e peço pra ele parar quando puder. Pego a mochila correndo e enquanto desço percebo que agora é um ônibus bem diferente, bem mais vivo do que aquele que eu entrei. Agradeço a carona e me despeço. Sozinho de novo na estrada. É interessante como os cenários e situações mudam rapidamente. Tive a idéia de descer neste trevo porque se eu conseguisse outra carona, poderia chegar na cidade dos pais de um amigo, onde eu pediria pouso para me recuperar dos machucados nos pés. Já deve ser por volta de 17hs e se escurecesse não havia chance de carona. E acampar perto de rodovia não é uma boa escolha. Vou caminhando até o outro lado do trevo já me preparando pra eternidade que seria esperar até a próxima carona, ainda mais numa data daquelas. Em rodovias, o tempo de luz é o limitante e não a distância. Não vale a pena caminhar em rodovias, porque, além de tudo, o tempo que se gasta pedindo carona compensa exponencialmente o deslocado a pé. Enquanto isso, passa uma carreta, peço carona e ela pára. Que bom! Corro. Falo pra onde eu estava indo e se poderia me dar uma carona. O motorista diz que sim, que seria bom porque há um trecho meio confuso que ele terá que passar e eu posso ajudar. Na cabine estão pai e filho. O pai, o motorista. O filho, uma criança de uns 6 anos. Eram da região Sul e nunca tinham vindo pros lados de cá.



Fico constrangido, tentando não encostar as costas suadas no banco do caminhão novinho, ao mesmo tempo que fico pensando que eu, no lugar dele, jamais daria carona pra um sujismundo como eu. Mas também penso que ele deva ter os seus motivos para ter feito o contrário. Falo que se não fossem eles, é provável que eu teria de passar a noite ali. Ajudo ele com os mapas, dou sugestões, falo das cidades pelas quais passariam. A conversa flui e antes que eu perceba, já chegamos no lugar onde eu tenho que descer. Agradeço, me despeço e desejo uma boa viagem a eles. Me surpreendo! Antes do pôr-do-sol eu já estava dentro da cidade dos pais do meu amigo. Não poderia imaginar que eu conseguiria. Estava muito cansado, mas muito feliz. Agora tinha que saber se meu amigo estava por lá, afinal era reveillón e as pessoas costumam fugir de casa. De qualquer forma, já me sinto vitorioso.



Toco a campainha. O portão se abre e encontro uma casa lotada, a maioria eu nem conhecia. Nem deu tempo de sentir vergonha porque fui muito bem acolhido, me trataram como se eu fosse alguém nobre. Tomo um ótimo banho já sentindo o cheiro gostoso de janta sendo preparada. Na água do banho vejo indo embora a poeira de um monte de lugar. E junto, o cansaço, as dores dos pés, as preocupações. Enquanto janto, tenho que contar minhas histórias para uma numerosa platéia interessada. Dou coloridos engraçados pras situações que me foram difíceis. Muitas das passagens eu percebo que são ridículas só no momento em que narro. Colho muitas gargalhadas. Mais tarde vou dormir e acho graça da imprevisibilidade das situações e como segundos a mais ou a menos podem mudar tudo. Como eu gosto disso. E foi dessa forma que começo 2009. Aprendo em um dia várias lições que me serão preciosas a vida inteira. Dias assim sempre me valeram muito mais do que anos de faculdade.

5 comentários:

  1. Confesso que fiquei extasiado com a narrativa. Não sei é pura imaginação ou anota do eu lírico. Tive a sensação de caminhar junto com o texto. Tive até um pouco de medo do vazio, mas me preenchi com a natureza, o imprevisto e desfecho.
    Mas, acho que fiz algo errado. Não li a parte introdutória. rsrsr. Excelenteeeeeeeeeeeeeeeeee
    Viajei junto. Agora isso foi verdadeiro?

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  2. Quem dera eu tivesse tamanha imaginação. Mas eu só tenho certeza de que isso aconteceu porque eu me lembro das dores e marcas nos meus pés e do calor. Me lembro também dos nomes das pessoas que encontrei e de suas histórias particulares, que também dariam vários escritos. Essas coisas são muito marcantes, não se esquece. Mas achei melhor omitir nomes, lugares e afins.
    Não gostei do tamanho do texto, mesmo eu retirando algumas partes. É chato ler tanto no computador. Quase dividi em mais uma parte, mas achei que só atrapalharia. Fico feliz que você tenha chegado até aqui nessa caminhada e que tenha te provocado várias sensações. Ainda mais pra você, acostumado a escrever tantas coisas bonitas e surpreendentes. Muito obrigado. Quando descansar, se ainda tiver fôlego, dê uma caminhada pelo texto anterior (o "Sobre o Argos...").

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  3. Suas narrativas são tintas coloridas que ao passo que vamos lendo vai se formando varias pinturas, para uns natureza morta, outros paisagens, para alguns pintura abstrata... Ao final temos varias obras de arte...

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  4. EXUBERANTE!!!


    Edilvo Mota

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