terça-feira, 4 de agosto de 2009

Sobre a Barbárie...

(clique nas fotos para ampliar)


A internet está cheia de textos e artigos comprovando a importância da São Paulo Railway (SPR) para o Brasil.
Que falam da maravilhosa obra de engenharia civil que conseguiu ligar o planalto cafeeiro ao porto de Santos por meio de uma estrada de ferro.
Que dizem da importância que a ferrovia teve para o escoamento da produção de café. Que explicam como ela favoreceu a mudança do centro econômico brasileiro para o Sudeste.
Que levantam hipóteses que relacionam esta ferrovia com o fortalecimento das oligarquias cafeeiras paulistas e, posteriormente, a mudança da Capital Federal do Rio de Janeiro para Brasília.
São comuns os textos que falam dessa lendária ferrovia, mãe das outras, que dela dependiam para chegar até ao Porto de Santos. 
Sem a SPR, boa parte das outras ferrovias perderiam o sentido de ser. Dos extraordinários investimentos ingleses na obra. Da absurda rentabilidade da ferrovia, uma das mais lucrativas do mundo inteiro. Das possíveis manobras que os ingleses fizeram para que o Barão de Mauá, então seu maior acionista, abrisse falência.
Do uso de mão-de-obra escrava pelos mesmos ingleses que apregoavam a abolição da escravatura. Das estratégias traçadas para manter o monopólio dessa ligação ferroviária frente às outras ferrovias. Das manobras feitas para esconder os grandes rendimentos, como o incêndio da Estação da Luz. Das pontes gigantescas e túneis complicados de se realizar. Da engenhosidade e inteligência dos dois sistemas funiculares, os maiores do mundo.
Mas só quem teve o prazer de percorrer o leito do que um dia foi tudo isso é que tem alguma noção dos obstáculos e das dimensões físicas do desafio que foi a construção. 
Vê a umidade intensa, que hoje devora o que sobrou das pontes, estas trazidas do outro lado do Atlântico e montadas em tempos onde não havia serviço de eletricidade disponível. Percebe a espessa egrégora do lugar.
Sente a chuva na cara e respira a densa neblina. Se torna uma parte da Funicular. Vê terrenos escarpados, contidos com esmerados trabalhos em pedra. Vê túneis e galerias feitos apenas com tijolos cerâmicos, em tempos onde ainda não se usava o concreto armado.
 São obras de meados do século XIX. Hoje tudo isso sem um uso inteligente. Hoje a floresta luta contra a obra do homem e vai aos poucos recobrando o espaço que sempre foi dela.
Quando se tem a chance de conhecer a Funicular, quase que automaticamente se faz várias analogias, principalmente no que se refere ao tempo, à pequenez da nossa existência e perceber que tudo o que existe, sejam obras humanas ou da natureza, um dia desaparecerá.
E por falar em desaparecer, outra idéia surge e nos damos conta de que vivemos em plena barbárie. E pior, nunca saímos dela. Os pensamentos vão se encaixando e se combinando, tais como engrenagens. Fica claro como somos capazes de rapidamente transformar tudo em ruínas.
E o quanto as ruínas físicas são só reflexo dos farrapos da nossa ética e dos nossos valores. O "progresso" então, parece ser só uma ilusão e as cidades, somente uma estrutura para viver essa ilusão.
Outra reflexão quase imediata é sobre como somos um povo impassível. Não sei de quem é a culpa. Não sei se isso é culpa de governo. 
Se é culpa da nossa má instrução. Ou mesmo se existe a culpa. De alguma forma, é óbvio que tudo parece estar interligado, mas no fundo, alguma coisa parece dizer que essa síndrome de Macunaíma está além da instituição “governo” ou da instituição “escola”.
E como uma coisa puxa a outra, fica mais do que evidente o restrito grau de soberania de um país que não se interessou em fazer um sistema de concessões que trabalhasse em favor da população. Os pedágios abusivos nas rodovias, as degradações das ferrovias, os desrespeitos das empresas telefônicas e de eletricidade, os monopólios das empresas de ônibus e a baixa qualidade dos programas de televisão são uma amostra disso. A população não se importa, achamos que isso é papel do governo.
E o milagre é que, apesar de toda essa carga negativa, pesada e assustadora que trazemos da estrutura das ilusões (cidade) um outro sentimento vai aos poucos aparecendo: como diria um amigo, “problemas unem pessoas”. É o desconforto que parece fazer o homem se mover. 
E a incapacidade de resolver seus problemas sozinho o faz se associar a outros na mesma situação.
O fez desenvolver códigos, sinais e preocupações nobres que por alguns segundos o fez sair da barbárie, para logo depois retornar à ela. É como um pulo, o vôo de alguém sem asas. Mas os poucos instantes em que está voando são os que fazem o mundo mover de verdade. E como diria um outro amigo, “sonhar não é esperar”.





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Veja aqui a segunda travessia da Funicular:  http://efgoyaz.blogspot.com/2010/06/sobre-afasia.html

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Site dos Funiculeiros:
http://www.funiculeiros.com.br/

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História da São Paulo Railway (1)
http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0102n.htm


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Vitrúvius

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Sistema Ferroviário no País do Domingão do Faustão
http://www.flickr.com/photos/efgoyaz/3772703524/

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A natureza retomando o que é dela por direito!

http://www.notadiaria.com.br/2012/02/trilha-sistema-funicular-spr-a-natureza-retomando-o-que-e-dela-por-direito/


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12 comentários:

  1. Só quem sente a vida que há em cada milimetro da funicular consegue entender o quanto dói a impotência perante ao descaso a seu respeito!
    Eu não conseguiria expressar tão bem esse sentimento em palavras, como tu o fez, de forma direta...simples...clara!
    Parabéns...me orgulho muito por ter estado contigo nessa empreitada...

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  2. Parabéns. Este seu post é praticamente um documentário também!
    Um legado muito interessante.
    Adorei tuas conclusões. Quisera eu ter esta sensibilidade!

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  3. Grande Glaucio!!
    Parabéns pelas fotografias e pelos textos.
    Está D +++++++++ !!
    Sensacional

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  4. Gláucio,
    Eu sempre soube do seu talendo e sensibilidade.
    Para tranquilizá-lo, eu só posso dizer que hoje, na ANTT, há pessoas (como eu e outros além de mim, claro) que trabalham por um país sério e que cuide melhor das suas ferrovias. O que fazemos ainda é pouco, eu sei, mas fazemos com empenho e responsabilidade.
    Talvez não consigamos recuperar grande parte dessa era heróica e romântica (no melhor sentido da palavra) que as ferrovias já tiveram, mas estamos trabalhando pela construção de novas histórias, vias, empregos, criação de uma nova tradição ferroviária compatível com nossas necessidades atuais.
    Não podemos fechar os olhos nem para o passado nem para o futuro.
    Todo nós somos muito importantes para isso. Você, com sua sensibilidade registrando e denunciando. Eu e tantos outros procurando fazer o melhor para que o governo faça sua parte, como deve ser.
    Não é um jogo de forças opostas, pelo contrário. A união de nossos esforços é que talvez, um dia, fará com que consigamos voar um pouco mais, e nos afastar, por mais tempo, quem sabe, da barbárie que você tão bem, citou.
    Grande abraço, me orgulho muito de ter sido seu professor, e de ser seu amigo.

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  5. Glaucio, você não só tem uma visão privilegiada, como também é um fotógrafo de primeira.
    Você realmente deveria editar um livro com essas suas andanças pelas ferrovias.

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  6. Gláucio, caro amigo,
    Excelente trabalho, muito bom mesmo, ótima resenha sobre a SPR e ótimas fotos que amargamente denunciam o descaso, como quem chupou a laranja e jogou fora o bagaço. Parabéns também, como já foi citado, pela sua sensibilidade, a sensibilidade de um jovem que ultrapassa a dos homens que geriram a SPR e suas sucessoras, sensibilidade essa que consegue no mundo atual fazerem razão e coração serem aliados.
    Grande abraço.

    4N63L0 5PR

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  7. Ahhh, Gláucio! E há os que duvidam da arte, a menosprezam, a inferiorizam, artista ou não, você fotografa a miserável relação milenar do homem com o mundo com uma gigante sensibilidade rara, de ser humano que suspeita da dimensão finita da vida humana,lembra que vai morrer e que o mundo vai continuar girando por ae... e o faz tão bem sem ostentar sua aura, faz parecerem tão pequenos os problemas gravemete cotidianos! Um Abraço!

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  8. FIQUEI EMOCIONADA QUANDO ACHEI ESSE DOCUMENTÁRIO E ESSAS FOTOS EU COPIEI TODAS.EU FUI CRIADA NESTE LUGAR MEU PAI É FERROVIÁRIO APOSENTADO.MUDAMOS PARA O 1° PATAMAR EM 1974 EU TINHA 8 ANOS,MORAMOS 5 ANOS LA,E DEPOIS MUDAMOS PARA RAÍZ DA SERRA QUE A ESTAÇAO PRÓXIMA O NOME ERA PIAÇAGUERA LA MORAMOS 3 ANOS,E MUDAMOS PARA PARANAPIACABA.HAAA QUE SAUDADES MEU PAI IA PRO MATO CAÇAR PALMITO ERA UMA DELÍCIA,EU IA PRA ESCOLA NO LOCOBREQUE ASSIM NÓS CHAMÁVAMOS A MARIA FUMAÇA,QUANDO ELA QUEBRAVA NÓS VINHA TODOS A PÉ NAQUELES VIADUTOS ALTOO, CORRÍAMOS NAQUELAS PLACAS DE FERRO E SEGURANDO NO CABO DE AÇO.AQUELAS MÁQUINA FIXA QUE COMANDAVA O LOCOBREQUE DE LA DEBAIXO ERA LINDAS NOVAS AS CORES ERA VERMELHAS;TINHA MUITAS PEÇAS DE BRONZE ATÉ NAS CASAS, AS TOMADAS ERA DE BRONZE OS TRINCOS DAS PORTAS TAMBÉM.OS INGLESES TINHAM CONTRATO COM O NOSSO GOVERNO DE 100 ANOS,QUANDO VENCEU ELES Ñ QUERIAM ENTREGAR A FERROVIA;FOI QUANDO ELES COLOCARAM FOGO NA ESTAÇÂO DA LUZ.JA TEVE ACIDENTE COM O LOCOBREQUE LEVAVA BASTANTE GENTE NAQUELE VAGÃO QUE TEM NAS FOTOS IGUAL OS TREM QUE ANDAMOS COM VÁRIAS JANELAS,FOI DENTRO DO TÚNEL,UM VINHA SUBINDO A SERRA E OUTRO VINHA DESCENDO E SE CHOCARAM NO TÚNEL .MORREU MUITA GENTE E TAMBÉM CRIANÇAS,QUANDO CHUVIA MUITO;A NOITE DA NOSSA CASA DAVA PRA OUVIR AS BARREIRAS CAIR ATERRAVA OS TRILHOS E FICAVA TODOS SEM PODER SAIR.ME CASEI EM PARANAPIACABA TIREI FOTOS NAQUELE CASTELO QUE TEM EM CIMA DO MORRO.EU MORAVA TRES CASA ACIMA DO PAU DA MISSA AQUELA ARVORE QUE TIRARAM FOTO DELA,MEU CORAÇÃO PARTIU QUANDO VI AS FOTOS E QUE CONDIÇÕES ESSE PATRIMONIO SE ENCONTRA HOJE O NOSSO GOVERNO FAZ TANTO DESCASO, QUE LINDO SERIA SE FOSSE PRESEVADO TUDO COMO ERA ANTES,A MINHA INFÂNCIA FOI MUITO SERENA NAQUELE LUGAR. BOM ACHO QUE FALEI DEMAIS ,DEIXO AQUI MEU ABRAÇO E AGRADEÇO POR ESSE PRESENTE!!!MEU NOME É ELIANA ITAMAR, MORO HOJE NO ESTADO DA BAHIA MEU FACE É, ITAMARPARDINHO@HOTMAIL.COM. SE QUISEREM SABER MAIS HISTÓRIA SOBRE O POUCO QUE SEI DA FERROVIA PELO MENOS ESSE PEDAÇINHO QUE VIVI ME ADD E NÓS FALAMOS PELO FACE .VC ESTA DE PARABÉNS GLÁUCIO! VC ME EMOCIONOU COM AQUELE TEXTO CONSEGUIU ACHAR PALAVRAS QUE EU SINTO QUANDO LEMBRO DESTE LUGAR.ABRAÇOS

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  9. Glauco... Antes de mais nada gostaria de parabenizar pelas fotos...
    Lindas e maravilhosas! Gosto muito de ler e ver sobre os planos elevados...
    Um dia vou fazer esse trajeto... Só preciso criar coragem e tempo.... Abração!! Parabens mas uma vez pelas fotos e claro.. pelo texto...
    Ass: VJ Erich

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  10. Caros colegas entendo a indignação e a saudade da maioria aqui..também considero um absurdo ter abandonado a funicular...é um lindo passeio, entre a serra do mar. Só que para restaurá-la, teriam que ser gastos algum bilhões de reais,já que estas engrenagens estão paradas a tanto tempo...O governo poderia ter colocado com uma cláusula de contrato, antes de privatizar a RFFSA (que administrava o sistema), que mantivesse a funicular para fins de turismo, acho que teria sido ótimo, mas será que o brasileiro estaria disposto a pagar entre 50,00 ou 100 reais para este passeio? tem gente que faz cara feia de pagar 7 reais na entrada de um museu...bom, eu pagaria, fui até Curitiba para fazer um passeio pela Serra Verde Express que desce a serra do mar, é lindíssimo,valeu muito a pena! No caso de São paulo dava para fazer um passeio turístico começando em Valongo (Santos-s.p.) e terminando em Jundiaí, com direito a parada no memorial dos imigrantes em são paulo explorando a rota histórica da imigração e cafeicultura no estado de s.paulo. Somos alem de pouco preparados arrogantes e burros, pois muitos vão fazer turismo em Miami e na Europa sem saber o que poderia ser feito aqui.

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  11. Glaucio. Muito legal o trabalho e belo texto. Lindas fotos. Ruínas q poderiam se tornar pontos turísticos fácil fácil. Daniel Gonzaga

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