quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Sobre o Perambular das idéias...




  Noite quente, de lua cheia. Ótima oportunidade para pedalar fora da cidade. Normalmente eu até levo lanterna, mas sempre deixo na mochila, prefiro não usar. É bom tentar usar outros sentidos e parar de privilegiar a visão.


Aliás, quando é lua nova é bem fácil enxergar de noite, desde que não se use lanterna. Com o escuro constante, a visão vai se acostumando, ainda que a percepção seja diferente.
Mas... a lua cheia traz a ilusão de que se está enxergando, quando na verdade não está o suficiente. E justamente por essa falsa impressão de estar enxergando é que surgem muitas das várias histórias de assombração, das quais, na minha opinião, boa parte se devem aos mal-entendidos da lua-cheia.



Pedalar em estradas de floresta com lua cheia é especialmente interessante. A luz que penetra por entre as folhagens vai causando desenhos no chão, não permitindo saber se são buracos, sombras ou algum bicho. A alternância entre luz e sombra não deixa o olho se acostumar nem com a claridade, nem com o escuro. E além disso tem a velocidade da bicicleta, que torna a compreensão das coisas um pouco mais tardia. E, na lua cheia, parece que os bichos ficam mais silenciosos, as flores noturnas ficam mais cheirosas e as idéias ficam menos lineares. É bom pedalar na lua cheia para fazer as idéias caminharem por lugares diferentes.



E a cabeça começa a divagar. Começo a pensar nas ações humanas e na ciência. Ato contínuo, fico pensando se há o bem e se há o mal. Continuo pedalando e as idéias vão passeando. Será que há o que chamamos de “sobrenatural”? Tentando dar racionalidade para o assunto, digo pra mim mesmo que se o sobrenatural existir, então ele obviamente será algo natural, regido pelas leis naturais. E já torno a pensar nas histórias de assombrações, contadas às centenas, muitas com muitos elementos semelhantes. Terão algum mínimo fundamento? Claro que não. Assombrações, que coisa mais boba. Só que lembro de alguns mal-entendidos que já aconteceram comigo e dos quais ainda não achei explicação racional. (Antes que comecem as suspeitas, é preciso que se diga que nunca fiz uso de drogas ilícitas).



Continuo pedalando sozinho em meio ao claro-escuro. Silêncio. A noite já não está tão quente assim, já batem algumas brisas mais frias. Já não sei se é frio ou se já é o medo dos meus pensamentos. Se existir assombração, ou elas querem somente assustar as pessoas ou querem se comunicar de alguma forma, pensei. É preciso ter coragem para manter o contato. Mas é óbvio que nada disso existe. Eu, sozinho no mato, em noite de lua cheia, para provar o que eu tinha certeza, estufo o peito e digo, bem alto: “SE EXISTIR ASSOMBRAÇÃO, QUERO VER UMA AGORA!”


No exato momento em que eu acabei de falar a última palavra, escuto um estrondo. Pranchas velhas de madeira batendo forte umas com as outras. Sem entender nada e morto de medo, vejo um ser ali bem na minha frente, disforme, que saiu sabe lá de onde. Umas duas vezes mais alto que eu. Ou talvez um pouco mais. Dentes bem grandes, sobre-humanos. Lembro muito bem dos dentes, já próximos ao meu rosto. E no próximo milésimo de segundo já começo a comprovar pra mim mesmo: “tá vendo, existe assombração sim, estou vendo uma agora.” Podem falar o que quiser, eu vi, ela está agora aqui na minha frente e, diante desta constatação não existe nada no mundo que me fará mudar de idéia.


E, no último milésimo de segundo, escuto um “SAI DA FRENTE, DIACHO!”
Demorou um pouco pra eu entender que quase, por bem pouco, quase fui atropelado por uma carroça e seu cavalo, bem sólidos e naturais, de acordo com as leis da física.
Moral da história: usem lanterna nos pedais noturnos.