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sábado, 4 de março de 2017

Sobre a Rosália...


Apesar do inverno rigoroso do sul do Brasil e da chuva persistente, as paisagens eram exageradamente bonitas. Cruzar a solidão daqueles campos infinitos, completamente sozinho, em condições climáticas severas e sem um destino racional mexeu bastante comigo. Muitas vezes eu me sentia como se a minha razão estivesse desligada e essa sensação era maravilhosa e emocionante.


O dia já estava se encerrando e a estradinha ruim foi piorando muito. Terreno pedregoso e enlameado, sem sinal de casas ou povoados por perto. O cansaço já me atingia com toda força. O frio molhado e o tal do minuano, que é um vento polar típico da Região Sul, tornaram-se ásperos. Meus pés estavam prestes a congelar. As mãos estavam duras.
Tarde demais percebi que aquela estrada estava abandonada e ficando muito perigosa. Caso eu me acidentasse, teria que esperar dias por alguma ajuda. Depois de uma curva escorreguenta de quase 180º, por onde corria um riacho, logo adiante percebi uma casinha de madeira, abandonada entre árvores baixas.
A luz do dia já tinha quase acabado. Este seria um bom lugar para dormir e isso me animou. Então, senti cheiro gostoso de lenha queimando. Havia gente morando naquelas lonjuras! Pensei em parar e pedir informações, porém não vi nenhuma luz acesa.


Ao passar em baixa velocidade devido ao terreno barrento e pedregoso, vi uma senhora em pé na varanda. Cumprimentei-a com um gesto, mas parece que ela não respondeu. Continuei o percurso no instante em que ela falou alguma coisa comigo. Parei a moto e morri de medo: ela estava com uma garrucha na mão?


Acho que eu acabei invadindo uma propriedade particular. Mas não consegui retornar, o barro escorreguento e a estrada estreita e inclinada me impediam de virar. Ao colocar o pé no chão, quase levei um tombo. Era só o que me faltava: molhado, cansado, perdido, com muita fome e ainda levar um tiro por ter invadido uma propriedade particular.
Não teve jeito, tive que desobedecê-la e prosseguir por uns metros até conseguir voltar para pedir desculpas e informações. A senhorinha, a garrucha e agora seu cachorro grandinho e silencioso continuavam na varanda. Tirei o capacete pra conversar. Ela me informou, num sotaque carregado, que a estrada havia mudado fazia alguns anos e que ninguém passava mais por ali. Explicou que eu teria que voltar uns 35 km até retomar a estrada principal. Dali para frente, a estrada acabava num arroio e que não era bom ficar "campeando" nesse tempo.


O desânimo bateu com força. Estava exausto! Havia dias que estava naquelas lonjuras, no gelo do inverno e com roupas molhadas que não secavam nunca. Era noite, retornar 35km naquela estrada difícil e perigosa me assombrava. Levaria muitas horas, agora no escuro e com muito mais frio. Agradeci à senhora pela informação. Quando fui colocar o capacete para continuar, meu pé escorregou e fui para o chão, com moto e mochila cargueira. O cachorro, até então silencioso e imóvel, veio latindo com tudo e nem reagi. Mas ele só me cheirou. Ergui a moto e fui buscar o capacete, que acabou indo longe. Nessa momento, a senhora falou que era melhor que eu "saísse da chuva e seguisse no outro dia".
Ela me advertiu que em pouco tempo a temperatura iria cair ainda mais e que eu ficaria "embreteado". Agradeci. Meus joelhos estavam congelados. A moto teve que ficar lá na estrada mesmo, nem me atrevi a subir com ela o barranco em que a casa se assentava.

Só então vi que a casa era pequena, praticamente uma cabana. Plantinhas em infinitos vasos ocupavam grande parte da varanda. O som da chuva e do vento no telhado de zinco formava uma atmosfera até interessante, mas também demonstrava a fragilidade daquela construção. Raspei o barro dos pés numa pedra posicionada para isso.
Dentro da casa, tudo muito limpo e muito organizado, porém bastante escuro. A única luz vinha de uma lamparina fumacenta e fraca, perto do fogão. O vento entrava por entre as frestas, que eram muitas. Poucos móveis, um baú, couros que me pareceram de ovelha. Simplicidade reinava. O cachorro também entrou, recolheu-se numa caixa no cantinho e não saiu mais de lá. Fechando a porta, ela disse que eu poderia colocar minhas coisas perto do fogão para ir secando e voltou às panelas que borbulhavam cheiros maravilhosos. Tentei oferecer alguma ajuda, mas um silêncio constrangedor foi a resposta. Na tentativa de puxar uma conversa, comecei a contar de onde eu vinha e o que fazia por ali. Ela não falava quase nada. Não consegui perceber se ela me ignorava ou se a sua mente também borbulhava. Instantaneamente, imaginei o quanto seria difícil aquela noite.
De onde eu estava vi, junto à imagem de uma santa, algumas fotos antigas, provavelmente dela e de sua família. Não me atrevi a perguntar nada sobre suas memórias. A luz pouca e a imaginação muita iam desenhando aquela casa que tinha uma atmosfera estranha. Era como se eu estivesse dentro de uma garrafa de náufrago. 
Com o passar dos primeiros instantes, pouco a pouco sua expressão foi se iluminando. A casa foi se aquecendo e meu monólogo foi se tornando uma conversa. Chamava-se Rosália. Morava há muitos anos nesse local, onde quase ninguém passava.

A janta ficou pronta. Abriu uma gaveta, tirou uma toalha e forrou a mesa. Colocou os pratos de uma forma que me pareceu ritual. Desapareceu no escuro de um cantinho perto das lenhas. Voltou de lá com um garrafão de vinho, dizendo ser "água-benta de beber despacito".
No começo ela me fez algumas perguntas, mas logo era somente ela que falava.
Dona Rosália era uma impressionante senhora de mais de 80 anos, plenamente ativa. Era visivelmente uma mulher valente. Usava gorro de lã, uma espécie de chale de lã sobre os ombros, meias grossas e chinelo. Não fazia nada com dificuldade. Começou a contar muitas histórias. A família dela e do finado marido foram proprietárias de muitas terras. Antigamente aquela região era muito movimentada e próspera. Todos sonhavam com um futuro promissor.
Só que a vida mudou todas as peças do tabuleiro e hoje ela possui apenas aquela casinha. E assim, o único contato que tem com a civilização é a passagem do leiteiro, três vezes por semana, do outro lado do arroio. Era impressionante como uma senhora idosa, esquecida por todos, ficasse sozinha, virando-se como podia!
A sensação era de que Dona Rosália havia caído numa fenda do tempo, ou até fosse uma personagem criada pela minha imaginação. Quem sabe era eu quem teria caído da moto, batido a cabeça e estivesse delirando em algum confim dos pampas?

E foi contando histórias dos tempos antigos, de disputas políticas e rurais, de como era a vida das pessoas até então. Cada palavra retumbava na minha mente, cada idéia se repartia em muitos significados. Era uma mulher muito sábia e inteligente. Lamentava-se do esquecimento do mundo rural, considerava que isso era até mesmo um erro de estratégia nacional. Entendi que neste ponto talvez estivesse a chave do que a manteve ali, naquela reclusão.
Contava tudo num sotaque carregado. Era quase um espanhol, por vezes divertido, com muitas palavras desconhecidas, típicas da região entre o Rio Grande do Sul e o Uruguai.
Ela contava sobre acontecimentos bastante relevantes, que acho que jamais foram escritos e talvez nunca o serão.
Pelo modo como falava, creio que há muito tempo não conversava com ninguém. Difícil esquecer o instante em que ela ficou olhando a luz do fogão. Depois falou,
com voz de tantos anos vividos, como se a sabedoria pudesse se impregnar no som da sua fala: "viver é ofício da despedida".


A janta estava ótima. Vinho muito bom, queijo, arroz, salame que me pareceu artesanal, cenoura, molho com outros ingredientes deliciosos que não reconheci. Terminada a janta, ela recolheu os pratos e em seguida me pediu para colocar uma espécie de sofá de madeira perto do fogão para eu dormir.
Forrou com vários panos e cobertores, cada tipo com um nome local que infelizmente não conservei. Fiquei um pouco envergonhado, porque limpo eu não estava e banho passava longe dos meus planos naquele momento. Por isso, usei meu saco de dormir como primeira camada. Ela foi dormir, levando junto a garrucha. Percebi que o seu quarto era do lado oposto ao fogão.
A essa hora, o único som que se ouvia era o da chuva nas telhas de zinco. O vento já tinha quase parado. Eu olhava para o teto me imaginado em qual ponto do globo terrestre estávamos. Apesar do conforto, acordei algumas vezes com frio, o que me fazia levantar para reavivar o fogo, sempre sendo vigiado pelo Cuiú. Fiquei pensando naquele lugar quase mágico e aquela personagem interessantíssima. Foi uma experiência fascinante ter chegado ali, seja pelo destino ou pelo acaso.


No outro dia, a chuva estava bem fraca e segui meu caminho. Antes a ajudei a carregar algumas coisas, consertar outras. Deixei um isqueiro, um recipiente com álcool que eu trazia e uma latinha com óleo desengripante. Descobri também que o cachorro chamava Cuiú. Na luz do dia, vi que dona Rosália tem olhos azuis e leves traços indígenas.
O tempo não conseguiu esconder completamente sua beleza da juventude. No fundo da cabana, as ruínas de uma carroça. Pouco mais à frente, uma horta muito caprichosa que ela cuida sozinha, a pouca distância da sanga, como se diz por lá. Fiquei feliz em ver que pelo menos fome ela não passava e silenciosamente pedi a Deus que lhe dê muita saúde. Continuando minha viagem, ao chegar em São Miguel dias depois desse encontro, conseguia então ver de uma forma muito particular aquelas histórias que ela contou. Isso me emocionou muito.
Hoje, relembrando de tudo, às vezes não tenho certeza se dona Rosália de fato existia mesmo.


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Sobre as antíteses...

(continuação do post anterior, Sobre o Argos... )
O dia nasceu. Acho que de tanto eu rezar pra que saísse um sol que aliviasse o peso das coisas molhadas na mochila, veio um dia bonito, surpreendente. Nasceu um sol de rachar nesse primeiro dia de 2009, que em nada me lembrou a noite anterior. Acordo bem descansado, não sei quanto tempo eu dormi, não foi muito mas me foi suficiente. O rio está calmo, mas muito barrento. Aproveito e desfaço rápido a barraca, porque o sol vem com tudo. Calço os meus coturnos, mas não foi nenhum sacrifício, dáva pra andar, apesar dos pés esfolados. O cheiro do mato molhado me anima.



Coloco a mochila nas costas e volto em direção à ferrovia, única estrada ali por perto. Sei que não  posso andar demais porque meus pés continuam machucados, mas já estão bem melhores.
A floresta agora em nada se parece com a angústia de ontem e assim consigo atravessá-la e alcanço os trilhos facilmente. Como essa ferrovia foi construída nos tempos das maria-fumaças, calculo que a próxima estação não poderia estar tão longe. Elas eram separadas umas das outras por 12km em média, porque essas locomotivas a vapor tinham que reabastecer seus tanques de água constantemente. Em trecho de serra então, essa distância seria bem menor. Julgo que a próxima estação tem grandes chances de estar mais perto do que aquela que eu passei ontem.



E assim faço: achei melhor não pegar os trilhos voltando e sim indo em direção à estação seguinte. O sol foi subindo, jogando sua força. O calor que já emana do lastro ferroviário começa a sufocar. E a ferrovia agora está fugindo do rio, subindo cada vez mais para reconquistar o planalto. E sobe muito forte. Vou contando as plaquinhas de quilômetro e a cada três eu paro para trocar as coisas molhadas de lugar para que sequem e fiquem leves. E é claro, aproveito pra descansar. Mas logo resolvo reduzir as pausas para dois quilômetros. A caminhada já está rendendo menos.



Os quilômetros vão se passando cada vez mais devagar. Conforme eu gasto minhas forças subindo, as árvores e sombras gostosas vão ficando pra trás, no vale verde do rio ao mesmo tempo que o sol fica mais forte. A ferrovia agora entra num terreno plano onde a agricultura arrancou quase toda a vida, transformou tudo em soja. Uma paisagem bonita e triste. Verde. Muda. Quente. Térrea. O vento ventando quente. Nem vejo sinal de nada no horizonte. Nenhuma antena que pudesse indicar cidade por perto. Muito menos a estação. E o pior, nem algum sinal que indicasse existência de água.



Calor. Muito, muito calor. Eu suporto o frio, a fome e até a sede por muito tempo. Mas o calor me extenua rapidamente. Me arrependo por ter pedido que o dia amanhecesse quente para secar minhas coisas pesadas. E tenho agora muita vontade de que chovesse. Não me importaria que a mochila ficasse ainda mais pesada com a chuva. Nem que sentisse frio. Pelo menos a água refrigeraria meu corpo. Engraçado como a vida é frágil, e pra ela existir precisa de um monte de requisitos bem específicos, todos na medida exata. Será quanto tempo eu poderia ainda andar naquela paisagem monótona de soja e trilhos?
Aparece uma árvore. Grande, mas de folhas ralas. Até a sombra é quente. Jogo a mochila no chão, tiro a camiseta e bebo o pouco de água que ainda tinha. A água estava muito quente. Deve ser meio-dia, talvez mais. A parada não me refrescou em nada.



Continuo caminhando e apareceu agora uma estrada de fazenda que cruza os trilhos e vai embora. Prefiro continuar pela ferrovia. Olho pra cima e vejo o sol. Bem que poderia chover. Quero água. O calor só vai piorando cada vez mais. Aí começa a bater um vento ainda quente, mas com cheiro diferente. É chuva vindo, mas não há sinal de nuvens. E agora já vejo bem longe o que pode ser uma torre de celular em meio à uma mancha verde que talvez sejam eucaliptos. A ferrovia vai pra lá. Só pode ser o lugarejo que procuro. Uma outra estrada de terra aparece e vai paralela aos trilhos. Bom sinal. Vou caminhando por ela, por ser mais confortável de pisar. O vento fica cada vez mais frio e nuvens muito baixas já começam a encobrir o sol. Que alívio. Vai chover. E não demora, vejo a chuva chegando. É bonito ver a massa branca vindo na plantação, mas agora já queria que desse tempo de chegar no vilarejo antes de ser pego pela chuva. Não vai dar. A cortina d'água vem com tudo, molha tudo com um pouco de violência. A água chega, passeia pelo meu corpo e pelo meu pensamento. Continuo andando. E por mais contraditório que pareça, me bate um pouco de medo, porque a chuva está ficando cada vez mais forte.



Já estou mais perto dos eucaliptos e vejo que embaixo deles há um caminhão pipa, pingando água. Apesar da chuva, continuo com muita sede. Nesta hora pouco me importa se os eucaliptos podem ser perigosos na chuva. Pouco me importa se o que pinga do caminhão é água mesmo ou agrotóxico. Estou com muita sede, nem penso no veneno. Quando me abaixo para pegar a água que verte do tanque, a porta do caminhão se abre e de lá vem uma bronca. Apesar da chuva torrencial, o homem grita para que eu não beba, é veneno. Aí vou até ele para explicar que estava com muita sede, e para saber que veneno era aquele. Lá de cima da cabine ele me oferece uma garrafa daquelas térmicas de 5 litros. Mas como eu estou com a mochila nas costas há muitas horas, com suas alças reduzindo a circulação de sangue nos braços, com muito cansaço acumulado, ao pegar a garrafa, ela por muito pouco não se espatifou no chão. Ela pesou demais, meus braços não obedecem direito. Não conseguia erguê-la para beber. Para mim era engraçado. Mas o rapaz do caminhão não achou graça, desceu na chuva e começou a me fazer um monte de perguntas, nitidamente preocupado com minha situação física. De onde eu vinha, o que fazia, se estava sozinho, se já tinha almoçado. Eu vou respondendo as perguntas e bebendo água. A chuva vai parando. Eu vou matando a sede. Pergunto se o tal lugarejo que eu procuro estava perto e ele me disse que estava a poucos quilômetros a frente. E também disse que iria me dar uma carona até lá, já que não adiantava mais pulverizar a plantação enquanto estivesse molhada. Agradeço pela água. Entro no caminhão, mesmo estando com as roupas ensopadas porque ele disse que não havia problema.



Vamos conversando e na estrada, uma grande jibóia atravessando. Antes de eu tentar interceder por ela, num segundo ele já vem com um discurso de que cobra é tudo ruim, que ele sempre mata mesmo. E no próximo segundo, desvia o caminhão e passa em cima dela, propositalmente. Eu olho pra trás e a vejo se retorcendo. Que situação ruim. Nem tenho como falar nada, nem deixo transparecer qualquer sentimento meu, nem a favor e nem contra a atitude. A verdade é que ver a cobra sendo atropelada foi pior do que todo sofrimento que passei hoje. Penso um pouco sobre o quanto é notável a relatividade da culpa nas mais diversas situações. Tão relativa que em qualquer caso pode ser total e ao mesmo tempo inexistente. Mas tudo bem, deixa pra lá, aconteceu tudo muito rápido e é melhor manter a mente em boa vibração.



Chegamos ao vilarejo. Eu já tinha ido lá outras vezes, porém por outros caminhos e nunca a pé. Pra mim continuava igual. Agradeço a carona, me ajudou demais, já me sinto mais animado a continuar. Porém, ele diz que está indo até uma venda e lá paramos. Descemos do caminhão. Ele vai falar com a mulher da venda. Escuto dizer pra ela anotar tudo o que eu consumisse, que eu ainda nem tinha almoçado e já vai saindo da venda, se despede e fala pra eu almoçar tranqüilo. Agradeço demais, mas aviso que não posso aceitar, por vários motivos: falo que tenho dinheiro suficiente pra comer, que isso era na verdade um passeio, que vim pelos trilhos de propósito, que eu estava era conhecendo o caminho, que sou acostumado a fazer isso. Mas ele parece não ter acreditado, entrou no caminhão e foi embora.



Comida servida, vou comendo bem devagar. E vou pensando nessa história do pagamento e estou decidido a acertar a conta com a dona. Percebo que ela fica curiosa, com vontade de conversar comigo, mas outros clientes a toda hora pedem alguma coisa. Vou mastigando e pensando que devia ser bem difícil pra alguém entender que eu fazia essas caminhadas de propósito. Que não era por nenhuma "precisão" ir de uma cidade até a outra, que não era promessa, que ia só pra passear. E ia a pé por gosto mesmo. E que faz parte do desafio levar só poucos reais. E pensei na atitude do rapaz do caminhão. Ele se sentiu feliz em poder ajudar. E como o almoço com refrigerante ficaria em menos de R$4,00, achei melhor deixar a mulher anotar, como parte do ritual.



A chuva passou tão rápido quanto chegou e agora tenho que continuar meu caminho. Pegar a estrada é sempre muito prazeroso. Tem algo de renovação, de nova chance, página em branco. Já devia ser por volta das 16hs, o sol já brilhava forte de novo, porém bem mais amigável. Era o sol que eu gostava. A minha cidade ainda estava muito longe. E já admito que não conseguiria voltar pra casa ainda hoje. Vou caminhando e deixando a cidadezinha pra trás, deixando as coisas acontecerem como deveria ser. Mas do jeito que meus pés estão uma carona seria muito bom. O problema é o baixo movimento daquela estrada de terra. Uma saída seria caminhar até chegar numa rodovia asfaltada a cerca de 20 quilômetros a frente. Vou tirando umas fotos da chuva pesada indo embora lá longe no horizonte.



Neste momento passa um ônibus! Peço carona, sem muita esperança. O ônibus passa e vai embora. Mas uns cem metros lá na frente ele pára. Será que é pra me dar carona ou pra descer algum passageiro? Quanto será a passagem? Corro até lá e já vou organizando uma história na cabeça para pedir isenção ou abatimento na passagem. A possibilidade de não ter que caminhar tanto e economizar os pés vale a pena. Fico muito feliz, consegui a carona! Entro e agradeço ao motorista. Mas só quando entro é que vejo que aquele não era um ônibus de linha. A minha realidade não é a mesma de um montão de gente. É reveillón. É um ônibus de bóias-frias. E enquanto eu estava me divertindo, por opção minha, tinha muita gente se matando em alguma lavoura, por obrigação, desde o primeiro dia do ano. Todos me olhando. Sorrio e enquanto vou indo pro fundo do ônibus, passo cumprimentando alguns com a cabeça, que me respondem com o mesmo gesto, porém de forma bem mais pesada. Estavam mais sujos do que eu. Acordaram muito mais cedo do que eu. E pareciam estar com o pensamento muito longe daquele ônibus. O único som era o monótono motor do ônibus. Me sento do lado de um e logo puxo papo, acho que como defesa ao desconforto do silêncio. Descubro que quase todos eles são maranhenses e uns poucos pernambucanos. Eles se matam de trabalhar por três meses na safra na região Sudeste, enquanto nas suas cidades não há oportunidade de trabalho. Por isso trabalham no natal, ano novo, sábado, domingo, enquanto dão conta, enquanto há safra. Depois retornam. Trabalho puxado que disseram que poucos daqui aceitam fazer. Talvez também por questões trabalhistas. E vi que entre eles havia algumas mulheres também, com cabelos escondidos nos bonés e formas diadorínicas ocultas sobre as sujas roupas masculinas.



Converso sem querer dar pistas de sentir pena deles. Não sinto. Quero é entender o cotidiano deles e não ouvir desabafos. A conversa vai ficando muito boa e à medida que eu conto do meu dia e ouço do dia deles aqui e lá no Maranhão, mais gente vai entrando na conversa, cada um sente vontade de contar mais coisas e ouvindo outras. As vozes vão ficando mais altas, empolgadas. Agora há risos. O ônibus agora entra na rodovia asfaltada. Mas vira pro lado oposto ao que eu deveria ir. Só então percebo que esqueci de perguntar pra onde eles estavam indo. Agora é tarde, deixa pra lá. Continuo a viagem com eles. O papo está muito animado. De repente vejo um trevo de entroncamento com outra rodovia e tenho uma idéia. Rapidamente vou até o motorista e peço pra ele parar quando puder. Pego a mochila correndo e enquanto desço percebo que agora é um ônibus bem diferente, bem mais vivo do que aquele que eu entrei. Talvez ele já fosse assim, eu é que não tinha percebido. Agradeço a carona e me despeço. Sozinho de novo na estrada. É interessante como os cenários e situações mudam rapidamente. Tive a idéia de descer neste trevo porque se eu conseguisse outra carona, poderia chegar na cidade dos pais de um amigo, onde eu pediria pouso para me recuperar dos machucados nos pés. Já deve ser por volta de 17hs e quando escurecer não haverá chance de carona. E acampar perto de rodovia não é uma boa escolha. Vou caminhando até o outro lado do trevo já me preparando pra eternidade que será esperar até a próxima carona, ainda mais numa data daquelas. Para o caroneiro em rodovias asfaltadas, o tempo de luz é o limitante e não a distância. Não vale a pena caminhar nestes cenários porque, além de tudo, o tempo que se gasta pedindo carona compensa exponencialmente o deslocado a pé. Enquanto isso, passa uma carreta, peço carona e ela pára. Que bom! Corro. Falo pra onde eu estava indo e se poderia me dar uma carona. O motorista diz que sim, que seria bom porque há um trecho meio confuso que ele precisa passar e eu aviso que posso ajudar. Na cabine estão pai e filho. O pai, o motorista. O filho, uma criança de uns 6 anos. Eram da região Sul e nunca tinham vindo pros lados de cá.



Fico constrangido, tentando não encostar as costas suadas no banco do caminhão novinho, ao mesmo tempo que fico pensando que eu, no lugar dele, jamais daria carona pra um sujismundo como eu. Mas também penso que ele deva ter os seus motivos para ter feito o contrário. Falo que se não fossem eles, é provável que eu teria de passar a noite ali. Ajudo ele com os mapas, dou sugestões de trajetos, falo das cidades pelas quais passariam, conservação das estradas. A conversa flui e mais uma vez, antes que eu perceba, já chegamos ao lugar aonde eu tenho que descer. Agradeço, me despeço e desejo uma boa viagem a eles. Me surpreendo! Não é que antes do pôr-do-sol eu já estava dentro da cidade dos pais do meu amigo? Não poderia imaginar que eu conseguiria. Estava muito cansado, mas muito feliz. Agora tinha que saber se meu amigo estava por lá, afinal era reveillón e as pessoas costumam fugir de casa. De qualquer forma, já me sinto vitorioso.



Toco a campainha. O portão se abre e encontro uma casa lotada, a maioria daquelas pessoas eu nem conhecia. Mas, na minha sujeira nem deu tempo de sentir vergonha porque fui muito bem acolhido, me trataram como se eu fosse alguém nobre. Tomo um ótimo banho já sentindo o cheiro gostoso de janta sendo preparada. Na água do banho vejo indo embora a poeira de um montão de lugar. E junto, o cansaço, as dores dos pés, as preocupações. Enquanto janto, tenho que contar minhas histórias para uma numerosa platéia interessada. Dou coloridos engraçados pras situações que me foram difíceis. Mas muitas das passagens eu percebo que são ridículas só mesmo no momento em que as narro. Colho muitas gargalhadas. Mais tarde vou dormir e acho graça da imprevisibilidade das situações e como segundos a mais ou a menos podem mudar tudo. Como eu gosto disso. E foi dessa forma que comecei 2009. Aprendo em um dia várias lições que me serão preciosas a vida inteira. Dias assim sempre me valeram muito mais do que anos de faculdade.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Sobre o Argos...





É, não teve jeito. Agora que o sol se pôs, quando ainda dá pra ver umas poucas nesgas de luz no horizonte, bateu um forte silêncio, daqueles que chegam e se impõem. Eu sabia: era sinal de chuva. Sem vento, sem luz. Nem é silêncio, é como se fosse uma surdez que foi chegando, a tal ponto que quase não ouço meus passos sobre o cascalho da estrada. A falta de sons cria um suspense. Começa uma brisa leve, que trouxe o forte cheiro de chuva, quase ao mesmo tempo em que os primeiros pingos começam a cair sobre meu rosto. Trovões.




Não teve jeito. A chuva só aumentou. Jamais eu havia passado naquela estrada, nem sabia se faltava muito ou pouco. A verdade é que meus pés já doíam muito porque esqueci de amarrar o cadarço do coturno desde a última parada. Com uma mochila tão pesada, não é algo tão fácil de fazer. Agora já não adiantava mais nada, o atrito do calçado com os pés já tinha me machucado.
Eu só me lembrava da prainha. Só tinha ido lá uma vez e mesmo assim, por outro caminho, bem diferente. Achei-a por acaso, há uns 6 meses antes. É uma paisagem linda: uma praia de areias douradas, cercadas de um lado pela água azul e de outro, por uma floresta vistosa. Era praticamente a bandeira brasileira. Sem sinal de qualquer habitação ou presença humana, a não ser a velha ponte de ferro, perdida no cerradão. E agora minha missão é conseguir chegar até lá de novo.




Eu caminho sozinho, mas Deus vai ao meu lado. Me lembro da quantidade imensa de gente que passa a vida inteira em meio a almoços de domingo lotados, mas que nem se dão conta de que estão completamente sozinhas. Minhas roupas estão encharcadas, o vento frio da noite zunia em meus ouvidos. A chuva grossa castiga em rajadas, me empurrando para trás. A estrada deserta tornou-se um lamaçal em pouco tempo. Sei que ainda falta muito, só não sei o quanto. A chuva batendo na minha cara vez ou outra até me atrapalha a respirar. Pouco enxergo. Meu olhar se fixa na estrada a pouca distância a frente dos meus pés. Tudo escuro, já que tenho que poupar a lanterna pra quando realmente for necessário. A visão deve também aprender a ver as coisas que a luz impede. No meio do breu, às vezes dá pra ver luzinhas amarelas. É uma casinha bem ao longe. E toda vez que vejo alguma, imagino a família que mora lá. Devem estar alimentados e dormindo bem quentinhos, ouvindo a chuva lá fora. E eu, ensopado, sozinho e com frio, com a imagem daquela praia deserta na cabeça. Essas vivências dão sentido diferente pra tudo, o valor é bem outro: todas as vezes que chove ou faz frio e estou bem abrigado, me lembro das vezes que passei por essas coisas e de quem deve estar sofrendo tudo isso nesse momento. Seja por opção, seja por situação. É assim quase todas as vezes que faço uma boa refeição. É inevitável lembrar das viagens em que a fome foi um desafio. E de quem deve sofrer isso todo dia, sem que seja uma opção ou desafio passageiro. A gente passa a valorizar muito mais cada coisa da vida.

Caminho já há mais de 6 horas. Em condições climáticas assim não se tem referência da paisagem e nem noção da distância já percorrida. Se eu estiver certo, chegarei num povoadinho e lá pegarei os trilhos até a tal prainha. Por enquanto nem sinal do povoadinho. Será que estou no caminho certo? Tenho que acreditar no meu faro. E nessas condições um pouco mais severas consegue-se um encontro consigo mesmo. A cabeça vê nessas horas um vasto campo para o devaneio. Ela voa e viaja quase livre e quanto mais ela voa, mais exercita a musculatura da criatividade. Fica claro nessas horas que a mente não é uma parte do meu corpo e sim, meu corpo é que é uma estrutura anexa tomada pela mente.




E a mente precisa que os sentidos estejam vivos. E, para isso, é necessário estímulos diversificados. Sinto frio e desamparo. Cansaço. O som da chuva batendo na orelha. A fome, nem dá mais pra sentir. Acho que ninguém faz idéia de onde eu estou. Nem o que estou passando. Mas agora já percebo uma iluminação fraca lá em cima daquele morro. Deve ser o povoadinho. E já fico um pouco mais animado por causa disso.
Entro na vila de ruas de bloquetes de concreto. Casinhas modestas ao redor da praça da igrejinha. Iluminação fraca e triste. Os postes mostram o quanto a chuva está mesmo forte. A enxurrada corre por sobre a rua. Frio. Não vejo nenhum sinal de vida, não ouço nenhum som além da chuva, nem sinto cheiro algum. Já deve ser bem tarde, nem parecia ser noite de reveillón. Será que errei a data? Só então percebo o quanto estou sujo. E agora estou um pouco mais perto da prainha de areias claras.

Volto a mergulhar no escuro. Alcanço os trilhos, por onde vou andando agora. Passo pela velha estação que eu conheci da outra vez. Sinto cheiro de dormente e diesel. Bem que eu poderia dormir nela. O telhado até me permitiria cozinhar. Dependurar as coisas pra secar. Mas minha vontade era acordar na praia deserta. Os dormentes estão bem lisos, pareciam ser de sabão. Com o meu cansaço e o peso da mochila torna-se perigoso um tombo ou uma torção. Mas do lado dos trilhos não dá pra andar. Existem valetas, o mato está alto. Prefiro ir escorregando pelos dormentes mesmo.
Esse trecho de trilhos eu já percorri da outra vez. Não pareceu tão longe como está sendo agora. Pelo relevo, percebo que ainda teria uma boa caminhada e meus pés continuam doendo muito. Depois de mais umas horas, vejo finalmente a ponte. Vê-la assim, um espectro quase invisível no meio da noite parece uma alucinação. Para atravessá-la, tenho que ir pé por pé porque abaixo dos dormentes só existe o precipício. Lá embaixo, escuto o rugido do rio, barulhento. Se vier o trem, terei que ser ágil e me apertar entre as vigas da ponte metálica.



A chuva não dá trégua. Mas agora tanto faz. Atravesso a ponte, deixo os trilhos e vejo a floresta. Meu próximo obstáculo. Terei que atravessá-la. Pego a lanterna e vejo a floresta tomada por teias de aranha. Acho um galho para ir limpando as teias por onde vou passando. Mas logo desisto, porque nem adianta, tem teia pra tudo quanto é lado. Por mais que eu me esprema, a mochila vai agarrando nos galhos e ramos da floresta fechada. Parece até proposital. O escuro tem algo de agressivo, a lanterna de cabeça, com lâmpada incandescente, só ilumina uma pequenina fração desse mundo vivo que é uma floresta, e já não sei realmente o que está me impedindo de andar. A tranqüilidade já não é natural, tenho que buscá-la racionalmente. É sinal de que tenho que parar. A distância entre as árvores parece ser menor do que a largura dos meus ombros. A vontade de voltar vai ficando cada vez maior. Mas voltar pra onde? Floresta é lugar fácil de se perder. Ainda mais numa noite daquelas. O cansaço aumenta muito. Vou controlando a mente, não é fácil lutar com/contra você mesmo. No fim da floresta, encontro o rio, mas já não há mais praia alguma. O rio está bem acima do leito normal, lambeu as margens e não há lugar sequer para montar a barraca. Fico feliz por estar sozinho, pelo menos não coloquei ninguém em enrascada. Agora a floresta acaba direto no rio. Não há espaço na floresta e nem fora dela que caiba a barraca. Depois de explorar bastante, encontro só um pequeno espaço, quase desbarrancando, que caberia minhas costas e meus pés encolhidos. Procurei, mas não há outra escolha. Monto a barraca que ficou parcialmente no ar e torço para que esse pequeno trecho não seja levado pelo rio durante a madrugada. Torço também para que amanheça um dia com sol, para secar minhas coisas, que estão muito pesadas.
Dentro da barraca, retiro o coturno. Minhas meias estão vermelhas de sangue. Devia mesmo ter amarrado o sapato. Mas não há arrependimento, essas histórias ficam mesmo marcadas não somente nas fotos, mas na carne também. Já adivinho que, por causa disso, pra voltar será outra peleja. Tenho a idéia de um terceiro caminho, também inédito pra mim, mas que tem grandes chances de ser mais curto.

Não há roupas secas. Mas pelo menos tenho a proteção da barraca e por isso o frio não é tão grande. Com a chuva forte lá fora não há como cozinhar. Mastigo meio miojo cru. É, não teve jeito. Feliz 2009. Agora tenho que dormir. Amanhã eu me viro. Isso se a barraca não despencar rio adentro.
(continua na próxima postagem, Sobre as antíteses...)