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domingo, 15 de junho de 2014

Sobre a Virtude...




É uma estrada. Já foi de ferro, hoje é de nada.
É um caminho abandonado, sem serventia humana, sem acesso, sem ligação.
Foi entalhada no vale de um rio que também hoje, tal qual a estrada, já não corre.
Suas bonitas paisagens, mesmo mutiladas nos últimos anos, ainda estão lá. A estrada corta florestas fechadas, que já foram bem exuberantes, mas ainda impressionam. Devido ao isolamento é fácil avistar bichos andando por ela. Catetos, iraras e bandos de guaxinins saem das moitas. Cascavéis se escondem embaixo das folhas de bambu, enquanto grande quantidade de pássaros passeia e canta pelas copas das árvores.
A luz amarela e suave da tarde penetra lateralmente pelas frestas das árvores, colorindo o chão de folhas e pedras.



Estava caminhando por ela nesta tarde. Andando sem pressa, respirando, ouvindo, vendo, pensando e fotografando. Bastante distraído. Já era final do dia, prestes a pegar o caminho de volta quando ergo o olhar e me deparo com um senhor, logo à minha frente.
Um senhor de barbas brancas, camisa de botão, um tanto surrada, mas bonita. Um aspecto meio cigano. Devia ter mais de 80 anos, montado em um cavalo. Apesar da idade, não tinha nada de decrépito. Chapéu preto tão velho quanto ele. Na garupa dele, uma menininha de no máximo uns quatro anos, descalça, cabelos pretos e longos, desgrenhados. Agarrada firmemente ao senhor, com rostinho colado nas suas costas.


Por algum motivo que não sei explicar, ele era o puro retrato da sabedoria. Ela, o puro retrato da inocência. Apareceram ali, não sei de onde.
Foram se aproximando, pensei que levaria uma bronca por estar em área particular. Respeitosamente o cumprimentei, ele retribuiu e parou para conversar. Sua voz, cansada pelos anos, era grave e firme.
Era um senhor simples, como tantos senhores que encontro e converso todos os dias.



Não sei se existe esse negócio de alma, mas se existir a minha soube na hora que eu estava diante de uma autoridade. Me falou poucas coisas, a maioria delas amenidades. Mas pra mim, essas amenidades me soaram como grandes lições, palavras de valor. Conversamos por breves minutos. Nos despedimos. Eles sumiram na floresta, da mesma forma como apareceram. Eu continuei meu caminho, mas muito impressionado, honrado e feliz. Ser bobo tem dessas vantagens: qualquer coisa impressiona. Pra mim é como se aqueles dois sempre foram parte desse lugar mágico. Esse encontro me fez ganhar bem mais que o dia.




domingo, 26 de maio de 2013

Sobre a senectude...

(CLIQUE NAS IMAGENS PARA AMPLIÁ-LAS)


O ônibus parou. Eu desci, peguei minha mochila e minha bicicleta no porta-malas. A porta se fechou e lá se foi o ônibus embora.
Era uma manhã do mês de maio. Sul de Minas Gerais, o dia acabava de amanhecer. Estava nas proximidades de Três Corações, na bifurcação entre a estrada que vai para São Thomé das Letras (para onde seguiu o ônibus) e outra, bem menos movimentada, para São Bento Abade.



Minha vontade era chegar em Ribeirão Vermelho para conhecer as belezas ferroviárias que ainda não conhecia. Para isso eu inocentemente contava que conseguiria pedalar até Ribeirão Vermelho e voltar para ainda dormir em São Thomé, num percurso total de 180km.



Para conseguir isso eu contava com a bicicleta, caronas que surgissem e muita vontade. Como obstáculos conscientes, além da longa distância, eu tinha um percurso por estradas rurais que eu nunca havia passado e nem conhecia ninguém que tivesse feito isso. Também tinha que pedalar pela BR Fernão Dias, rodovia que eu conhecia dirigindo moto e carro. Mas de bicicleta tudo muda de figura.



Além desses obstáculos, eu tinha vários outros que me aguardavam e eu nem imaginava.
Levava na mochila um pacote de bolachas, câmera fotográfica, uma lanterna de cabeça, um mini-estojo de ferramentas, nenhuma água e nenhuma roupa de frio, que são duas coisas que não considero primordiais aqui no cerradão do Triângulo Mineiro. Água aqui no cerrado é muito fácil encontrar. E o frio pode ser forte, mas nunca é insuportável. Se ele apertasse, bastaria pedalar mais pra esquentar. Era o que eu achava. Seja como for, é preciso dar espaço para o imprevisível sem dar sorte para o azar.



Subo na bicicleta e fui enfrentar o desconhecido. Situação que pra mim é muito prazerosa. Descubro que dali até São Bento Abade são apenas 6 quilômetros, com algumas subidas fortes, mas tranqüilas.
São Bento é bem pequena e configura-se em forma de um retângulo estreito e comprido, dividido ao meio pela estrada, que chega na parte alta da cidade e vai descendo até um riacho, que é o fim da parte urbana.



Tiro algumas fotos, puxo alguma conversa, visito a igreja, faço uma oração e continuo minha jornada. O asfalto acaba e começa uma estradinha tortuosa, com várias subidas e descidas. Até chegar a rodovia Fernão Dias são apenas 25 km por um sobe-e-desce em estrada de terra. Essa região possui paisagens muito bonitas, com morros, riachos, casarões antigos e vou parando em tudo o que eu tenho vontade.




A parte ruim é que não posso aproveitar as descidas para embalar porque no final de todas elas há mata-burros longitudinais (que em mineirês se diz "de comprido"), me obrigando a passar em baixa velocidade, sem aproveitar o embalo pra subir.




Fico atento para encontrar sinais ferroviários da antiga Rêde Mineira de Viação. Olhando os mapas, eu deveria passar perto da estação de Salto, poucos quilômetros antes de cruzar os trilhos. Mas depois de uma grande descida, encontro os trilhos prematuramente e logo depois, um senhor a cavalo.



Pergunto sobre a estação. Ele me disse que eu teria que subir a estrada de volta. Quando comecei a regressar, veio um ônibus novinho com apenas dois passageiros, parou e me perguntou se eu queria carona. Situação muito estranha, um ônibus novinho numa estrada como aquela e parar sem eu pedir carona. Mas resolvi aceitar e deixei a estação para outra oportunidade. O ônibus me fez ganhar um tempo precioso por me poupar de uma bruta subida (por isso que devem ter oferecido carona) e me deixou dentro da cidade de Carmo da Cachoeira. Tranco a bicicleta, mas tenho certeza de que nem precisava, a cidade é muito tranquila, às margens da Fernão Dias. Percorro algumas ruas do centro que tem belos casarões, faço um lanche e volto para a estrada.



De Carmo até o trevo para Lavras faltavam ainda uns 30 quilômetros. Mas pedalar na rodovia, apesar da facilidade do piso, é muito ruim. A via é duplicada, de intenso movimento. Há muitos caminhões em alta velocidade que trafegam pelo acostamento por causa das curvas fechadas. A medida mais prudente é andar pelo acostamento da contramão, mas como as vias são separadas por canteiros e divisórias de concreto, fazer isso seria abrir mão de alguma carona que por ventura surgisse.



Fui pedalando, olhando mais pra trás do que pra frente, desviando de destroços de pneus estourados, peças de caminhões, pedaços de pau, pedras. Nem percebi que havia pulado mais uma estação, bem do lado da rodovia: a de Carmo da Cachoeira, que fica fora da cidade.
Mas percebo que se aproxima um ônibus tipo escolar, já um pouco velho. Desço da bicicleta e peço carona. O ônibus pára. Não há porta-malas, a bicicleta teve que ir dentro, junto com os poucos passageiros, que até me ajudaram a subir. A viagem continuou, mas o som constante do motor barulhento dáva a impressão de que iria demorar mais de ônibus do que pedalando. Demorou também alguém me fazer alguma pergunta. Era um ônibus de prefeitura, com gente simples, muito desconfiada. Mas não é difícil quebrar essa barreira e puxar assunto. Conto sobre minha aventura, recebo primeiro muitos desincentivos. Mas depois, começam algumas dicas, recomendações e nomes a quem recorrer em caso de necessidade. A viagem flui e logo chega o trevo em que devo descer. Paro e o ônibus segue o caminho dele e eu o meu. Agora saio da Fernão Dias faltando só 15 quilômetros até Ribeirão. Começo de estrada meio difícil de pedalar, muito movimentada e perigosa porque dá acesso a Lavras, uma cidade grande.
O calor e o sol da tarde estavam fortes, desisto de tentar carona e vou para a contramão pedalar no acostamento com mais segurança. Muitas subidas, descidas, entradas, morros, placas. E a saída para Ribeirão, que nunca chega? Finalmente chego na indicação da entrada de Ribeirão Vermelho, que traz a distância de 5km.


Foram 5km de uma bruta descida que só acaba dentro da cidade. Lá de cima, naquela distância, já dá pra ver a imensa rotunda. Já me sinto com a missão cumprida, só de ver esses prédios ao longe. Fiquei imaginando a volta, iria demorar um tempão subindo aquilo tudo. Os trilhos aparecem à minha direita, assentados sob um pequeno aterro, provavelmente por causa das inundações. A cidade é muito tranquila e de repente chego na ponte rodoferroviária sobre o Rio Grande.


Já era 15hs. Na ponte, que comporta apenas uma mão de direção, há um semáforo que controla os carros que vão, os que vem e, algumas vezes por dia, os trens de carga. Quando o semáforo abriu para o meu lado, tive que ir à frente de todos os carros. Todos têm muita pressa, porque há pouco tempo antes que o semáforo feche de novo. Pensei em fotografar essa travessia, mas não dá, porque além da pressão dos carros que vêm atrás, tenho que prestar atenção para não deixar o pneu da bicicleta entrar em uma das frestas longitudinais da ponte.




O lugar é de fato muito bonito e não dá pra acreditar que o Rio Grande, que naquele ponto de grande só tinha o nome, conseguiria inundar todo aquele vale, muito aberto. Há muitos prédios em ruínas, espalhados, e tenho dificuldades em entender como aquilo tudo funcionava. Vou visitando essas ruínas em cima da bicicleta mesmo e fazendo fotos rápidas. Converso com alguns funcionários da prefeitura na estação.




15:30, torno a pegar a estrada, agora fazendo o caminho de volta. Subo até a estrada de Lavras mais rapidamente do que imaginava. Minha esperança é conseguir uma carona que me deixe ao menos em Carmo da Cachoeira. Mas ninguém pára. Quanto mais o tempo passa, mais difícil fica, é todo mundo cansado, querendo voltar pra casa ao mesmo tempo. Chego na Fernão Dias no final da tarde. A coisa começa a complicar. Lusco-fusco, acabaram-se as chances de carona. O acostamento começa a ficar mais perigoso. Passo para a contramão, para ver os carros vindo de frente e foi uma boa idéia. Coloco a lanterna na cabeça e vou pedalando no canto do acostamento. Mas é muito difícil, os faróis dos carros ofuscam a visão, não consigo enxergar ao mesmo tempo os carros e o lugar aonde estou passando, cheio de armadilhas, valetas, pneus, muretas. Para me enxergarem com mais facilidade, os carros e caminhões ligam o farol alto, mas não percebem que isso me deixa cego. Como se não bastasse, vez ou outra vem algum caminhão disputando espaço no acostamento comigo e nem sempre tenho para onde sair. Não faço idéia de quanto ainda falta andar naquela rodovia e o barulho, a quantidade e velocidade dos carros parece aumentar cada vez mais. Muito sufoco.



O esforço psicológico é tremendo. Não reconheço a estrada, chego a imaginar que passei do ponto aonde deveria deixar a rodovia e pegar a estrada de terra. Sons, luzes, distância, cansaço. O frio foi aumentando. Não aguentava mais pedalar na rodovia. Várias horas se passaram até que ao longe vejo alguns carros de polícia parados. Vou seguindo a sinuosa rodovia até chegar lá. Era um caminhão tombado bem no ponto em que eu deixaria a rodovia para tomar a estrada de terra.



Era um pouco depois das 21hs. Finalmente a estrada de terra, sem carros ou faróis. Agora vem uma descida muito, muito longa, aquela mesma que o ônibus escolar me poupou. Era maio. Eu de camiseta molhada de suor, bermuda, de noite no mato. No cerrado pelo menos o frio é seco, mas aqui no sul de Minas, não. Tenho dificuldades em usar o freio, as mãos estão ficando muito duras. O frio começa a ficar preocupante. Como é descida, não dá pra exercitar e vou sentindo cada vez mais frio. Depois da descida, aparece uma subida, me esforço, mas não adianta: minhas roupas estão geladas.  Minha respiração condensa, vou perdendo mais ainda a sensibilidade das minhas mãos, não sinto os dedos mexendo. O céu estava muitíssimo estrelado. Belíssimo. Esqueço a estrada, paro pra tirar umas fotos, mas não consigo. Apesar da beleza da noite, estou tremendo bastante. Quanto mais parado eu fico, mais o frio domina. O tempo está se esgotando e a temperatura cai rapidamente.




Subidas e descidas vão se sucedendo e tanto uma quanto a outra são muito ruins para a minha condição. Meu estômago começa a embrulhar, mas ele está vazio. O mal-estar vai ficando maior. Não consigo mais pedalar, não dá. Desço da bicicleta e vou empurrando. Mas cada vez que me mexo, pior me sinto, só que se eu ficar parado vou congelar. Não há sinal de nenhum lugar ou alguém a quem recorrer ou chamar. A única coisa que consegui fazer foi tirar a bicicleta da estrada, me deitar no mato molhado e gelado, ao lado da estrada de terra vazia, silenciosa e escura. Só ouço o vento passando nas folhas. Somente o vento e o meu pulso, ambos cada vez mais longe.




Acordo com alguém me sacudindo.  No escuro, procuro assustado saber quem é, mas percebo que foi meu próprio corpo tremendo forte de frio que me acordou. Não faço idéia de quanto tempo fiquei ali. Estou um pouco melhor, já consigo pedalar e ignorar o frio. O céu da minha boca está com sensação de queimado, sem sensibilidade.
Lá muito longe começo a ver as luzes amareladas de São Bento Abade e me animo um pouco. Mantenho a persistência, foco meu pensamento somente na tarefa de mandar energia para as pernas. Preciso chegar vivo lá e aproveitar enquanto posso.




Depois de algum tempo, entro na cidade silenciosa e parada. Não sei quantas horas é, mas vejo que ainda há um cômodo de comércio aberto. Percebo que é um pequeno barzinho, na subida perto da igreja. Me arrasto até lá, sem conseguir pensar direito. Me sento e sob olhares muito preocupados da dona, peço um refrigerante de 2 litros e um sanduíche. O refrigerante consegui ir bebendo aos poucos até acabar. Mas o sanduíche, só consegui dar uma pequena mordida e voltei e me sentir mal. Guardei para depois.
Pergunto sobre hospedagem, explico a minha situação e a moça me instrui a ir até o único hotel da cidade, pouco adiante. Não há pensão, albergue ou qualquer outro lugar de hospedagem.


Chamo no interfone e uma voz com sono atende. Pergunto se há vagas e a pessoa foi até a porta me atender. Expliquei que precisava de uma vaga só até amanhecer, quando continuaria minha jornada até São Thomé das Letras. O proprietário me informou que o hotel estava lotado porque uma romaria religiosa estava passando por lá naquele dia. Eu tento convencê-lo a me deixar dormir em algum canto, corredor, sala, cozinha, etc, porque estava somente com aquelas roupas de verão molhadas e não conhecia ninguém na cidade. E pagaria a diária adiantado. O cara reafirmou que não tinha vaga. Boa noite. A porta se fecha. E tudo bem.



Arrastei minha bicicleta até a saída para São Thomé. Dáva pra ver as luzes da cidade vizinha, lá em cima do morro. Não estava longe, faltavam apenas 20km. Mesmo empurrando a bicicleta o tempo todo, acho que gastaria umas 4 horas. Lá estava meu quarto de hotel, cama e cobertor quentinho, banho quente, janta e minhas roupas limpas me esperando.
Mas eu tive medo de passar mal mais uma vez no meio do nada. Tento carona, até que um ou outro carro passam, mas no meu estado físico e com uma bicicleta, sem chance.
Depois de algum tempo tentando, torno a descer a avenida completamente vazia até chegar na rodoviária. Tranco a bicicleta num canto, encostada na parede e me deito no chão embaixo dela. Não via sinal de ninguém na rua. Ventava muito frio, o chão queimava. Não dáva pra dormir.
Fui até os lixos, achei dois grandes pedaços de papelão. Com um deles forrei o chão e com o outro me cobri. Consegui dormir facilmente.



Acordei com fome e peguei o sanduíche que estava guardado. Comi tudo, fui tirar água do joelho e quando retorno à minha “cama” vejo um cachorro dormindo nela. Não sei de onde ele veio, mas está tão frio que fico com pena dele. Deixei aquele papelão pra ele e dormi no outro, sem me cobrir.
Acordo com os primeiros sinais da claridade, já estou melhor e consigo pedalar. Há um outro cachorro dormindo nos meus pés. Aquele primeiro sumiu e nem percebi esse outro chegar. Destranco a bicicleta, pego a estrada e, apesar do frio, vou me aquecendo rapidamente. As cores do dia nascendo dão uma violenta injeção de ânimo.




Vou vencendo quilômetro por quilômetro, subida após subida, até chegar em São Thomé das Letras. Reencontro as pessoas do ônibus, mas nem dá pra contar direito a minha aventura. Os ossos do meu rosto doíam bastante e permaneceram assim por uns dois dias. Na noite seguinte, mesmo dentro do quarto, com duas cobertas grossas e dentro do meu saco de dormir, passei muito frio. Talvez fosse o corpo cobrando a conta da noite anterior. O céu da minha boca continuou queimado, sem sensibilidade e ficou assim por mais de duas semanas. Meu rosto também ficou queimado pelo frio. Alguns meses depois percebi que todas as minhas unhas das mãos tinham um vinco/relevo que julgo terem sido feitos nesse dia.
E, apesar de tudo, valeu a experiência. Pra gente teimosa tem coisa que não adianta falar, tem que aprender na própria pele.


sexta-feira, 29 de junho de 2012

Sobre a hipsografia...


"Serra da Boa Esperança, esperança que encerra
No coração do Brasil um punhado de terra
No coração de quem vai, no coração de quem vem
Serra da Boa Esperança, meu último bem"
(Lamartine Babo)



Tenho uma crença: não há jeito melhor para se conhecer um lugar do que percorrê-lo a pé. Saí cedo de casa. Meu objetivo era seguir o trecho ferroviário da Serra da Bucãina/Morro da Mesa, que fica no município de Araguari-MG, próximo à divisa com Goiás. Esse trecho, de construção onerosa e operação delicada no vale do rio Paranaíba, é considerado um dos fatores mais importantes para a desistência da Mogiana em chegar até Catalão. A companhia preferiu não prosseguir além de Araguari. Esse trecho de topografia difícil acabou sendo construído pela Estrada de Ferro Goyaz (EFG) nos primeiros anos da década de 1910, cerca de 15 anos depois da chegada da Mogiana em Araguari.




Na década de 1980 uma nova linha foi construída a cerca de 15km a leste, e essa linha velha acabou sendo arrancada. O mato cresceu, o acesso se tornou difícil e tudo lá ficou esquecido. Meu objetivo era descer essa serra por onde os trilhos desciam. Eu já tinha tentado fazer isso antes, mas o trecho crítico mede cerca de 9km e fica a quase 40km de Araguari. É muito demorado para ir a pé (um total de 52km só de ida) e de bicicleta pelo leito não é mais possível descer, pela altura do mato, quantidade de valetas de escoamento, queda de barreiras, erosão de aterros, etc. De qualquer jeito ia precisar de tempo de sobra, porque não sabia o que iria encontrar e não tinha notícia de ninguém que tinha feito o mesmo. Até que em 2010 o feriado de 7 de setembro caiu numa terça e consegui “emendar” a segunda. Eu tinha que ir e voltar em 4 dias e assim achei que o tempo daria com sobra.




Lá fui eu, sozinho com mochila, panelas, barraca, etc. A antiga estação de Araguari é o quilômetro zero da EFG. O distrito de Amanhece fica no quilômetro 15, Ararapira no quilômetro 30. O trecho de serra mais pesado começa no quilômetro 38 (lá tinha uma estação com esse nome) e o final da serra mais forte fica no quilômetro 47, onde havia a estação “Horto Florestal”. A partir de lá a ferrovia continuava numa descida mais suave até na estação Engenheiro Bethout (Bitú), km 52, às margens do rio Paranaíba, divisa com Goiás. Desse trecho centenário apenas os primeiros 2,5km ainda existem, ameaçados na área urbana de Araguari. O restante foi erradicado.




Para poupar tempo e esforço físico decidi pular o trecho inicial de Araguari até Amanhece porque esse eu já conhecia muito bem. E de Amanhece em diante eu iria a pé, passando exatamente onde o trem passava. Na metade da manhã cheguei na saída de Araguari para Amanhece e logo ganhei uma carona. Em Amanhece aproveitei para me abastecer de água, extremamente necessária no seco setembro do cerrado. Comprei 2 litros de suco de laranja para ir bebendo no caminho. Mochila cheia e pesada, pé na estrada.




Em Amanhece a ferrovia tomava a direção Oeste para chegar em Ararapira. O leito ferroviário segue paralelo à uma estrada rural, mas eu fui andando exatamente pelo leito, coberto de mato e cheio de buracos, pulando cercas e demais obstáculos. As britas (lastro) eram minha referência, quando havia.



Conforme fui avançando, a Serra do Vale do rio Paranaíba (Serra da Bucãina/do Morro da Mesa) foi aparecendo e oferecendo um panorama muito bonito, apesar da secura da paisagem nesta época.



Aliás, tão seca que 8km depois eu já tinha bebido todo o suco. Apesar da sequidão, sentida principalmente no respirar, e do aspecto de sofrimento das plantas, é justo nessa época que o cerrado dá suas flores mais bonitas, cheirosas e coloridas. Havia muitos pequis floridos, ipês, etc.



Mais ou menos na metade do caminho para Ararapira a estrada de carros corta caminho para a direita, enquanto a ferrovia descrevia uma grande curva, para reencontrar a mesma estrada 2,5km adiante. É um trecho de vegetação mais fechado, mas no geral sem grandes dificuldades.




Um pouco a frente encontrei os alicerces de uma construção ferroviária (uma parada? uma casa de turma?) e os pilares de uma caixa d’água para abastecimento das locomotivas. Em um deles ainda há a inscrição da Diretoria de Obras da EFG, com a data de 25/02/54 (pouco mais de um mês antes da traumática transferência da sede da EFG de Araguari para Goiânia).




Já chegando no povoado de Ararapira, a ferrovia torna a se distanciar da estrada, evitando uma subida. De novo, segui pelo leito ferroviário.




Ao chegar em Ararapira no começo da tarde do sábado, o sol forte, o ar seco e o peso da mochila fizeram sentir o cansaço. A estação foi demolida na década de 1980, restando apenas a plataforma e escadaria. Parei um pouco pra descansar numa venda antiga. Lá algumas poucas pessoas do lugarejo bebiam pinga e petiscavam salame, gastando a folga da tarde de sábado. Alguns me olhavam com cara curiosa. Puxei papo, perguntei algumas coisas, respondi outras. Infelizmente não pude conversar muito. Me abasteci com água, artigo ainda mais raro no trecho a frente. Ararapira foi o último lugar onde eu vi alguém, até o fim do passeio. Comprei uma lata empoeirada de salsicha e continuei o caminho.




Mas assim que saí da venda algumas crianças me cercaram e começaram a perguntar se eu iria saltar de pára-quedas. Achei graça e disse era só uma mochila grande. Pensei: de onde elas tiraram isso? Mas alguns meses depois eu descobri que um piloto havia morrido praticando paraglider lá. E vi que realmente aquela região é muito usada por praticantes desse esporte. Atravessei um colchete e deixei as crianças curiosas e o povoado pra trás. O leito vai rumando ao norte, agora sem muitas estradas pelas vizinhanças. Ele segue por outros caminhos, tangenciando o vale do rio Paranaíba. As paisagens são bonitas demais e dá pra imaginar a admiração das pessoas ao vê-las a partir da janela dos vagões.




Caminhando, ouvi uma explosão, som bem parecido com um trovão. Fiquei observando até entender que, pela localização da poeira branca que se elevou no horizonte, foi uma detonação na mina de calcário, há mais de 10km de distância. São comuns. Continuei caminhando pelos pastos onde o trem passava. Vez ou outra, árvores de grande porte denunciam os 30 anos em que o último trem passou.




A tarde foi acabando e antes de chegar no antigo “Trinta e Oito”, a ferrovia passava por alguns cortes mais ou menos profundos.



Cheguei ao local de acampamento junto com o pôr-do-sol. Era uma antiga vila ferroviária, com várias casas e instalações operacionais. Elas serviam de apoio aos trens que iriam descer a serra e recebiam os trens que acabavam de subir. Foram todas demolidas, restando apenas alguns alicerces perdidos no meio do mato.




Muito cansado, joguei a mochila e corri pra aproveitar o pôr-do-sol, que no cerrado parece ser extremamente colorido. Todas essas fotos foram tiradas no dia 4 de setembro de 2010 neste local.




Assim que o sol se pôs, corri para aproveitar o final da claridade para montar logo a barraca, exatamente sobre o antigo leito.




Não há água para tomar banho. E para beber, tive que me contentar com a que me restava. O calor forte do dia seco foi aos poucos se transformando em frio. Comecei a sentir dor de cabeça, coisa muito rara. Desisti de cozinhar, entrei na barraca e jantei a lata de salsicha. Eu estava me sentindo muito incomodado, mas não sabia com o quê. A noite estava muito silenciosa, sem nenhuma brisa ou som de bicho. Não conseguia dormir, até que ouvi algo se arrastando, de forma cadenciada. Cada vez mais perto. Prestei muita atenção, quase sem respirar. Arrastava, parava. Arrastava, parava. Parecia algo pesado. Em alguns momentos, o som vinha de um lado da barraca. Depois, o som vinha de outro lado. Achei melhor não sair para ver o que era, estava muito perto. Normalmente eu teria saído. O som continuou por mais de uma hora, tempo em que fiquei tentando equilibrar o medo e a curiosidade. Me convenci que de dia era só observar os rastros e entenderia o quê estava arrastando o quê. Em época de poeira tudo forma rastros. Dormi e, sugestionado pelo barulho, sonhei com uma pessoa atropelada pelo trem, que não tinha mais corpo da cintura pra baixo, que se arrastava ao redor da minha barraca. Eu nem tinha alcançado ainda o trecho de serra e já estava passando muito medo.


(Continua na próxima postagem, Sobre o bulício...)