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domingo, 15 de junho de 2014

Sobre a Virtude...




É uma estrada. Já foi de ferro, hoje é de nada.
É um caminho abandonado, sem serventia humana, sem acesso, sem ligação.
Foi entalhada no vale de um rio que também hoje, tal qual a estrada, já não corre.
Suas bonitas paisagens, mesmo mutiladas nos últimos anos, ainda estão lá. A estrada corta florestas fechadas, que já foram bem exuberantes, mas ainda impressionam. Devido ao isolamento é fácil avistar bichos andando por ela. Catetos, iraras e bandos de guaxinins saem das moitas. Cascavéis se escondem embaixo das folhas de bambu, enquanto grande quantidade de pássaros passeia e canta pelas copas das árvores.
A luz amarela e suave da tarde penetra lateralmente pelas frestas das árvores, colorindo o chão de folhas e pedras.



Estava caminhando por ela nesta tarde. Andando sem pressa, respirando, ouvindo, vendo, pensando e fotografando. Bastante distraído. Já era final do dia, prestes a pegar o caminho de volta quando ergo o olhar e me deparo com um senhor, logo à minha frente.
Um senhor de barbas brancas, camisa de botão, um tanto surrada, mas bonita. Um aspecto meio cigano. Devia ter mais de 80 anos, montado em um cavalo. Apesar da idade, não tinha nada de decrépito. Chapéu preto tão velho quanto ele. Na garupa dele, uma menininha de no máximo uns quatro anos, descalça, cabelos pretos e longos, desgrenhados. Agarrada firmemente ao senhor, com rostinho colado nas suas costas.


Por algum motivo que não sei explicar, ele era o puro retrato da sabedoria. Ela, o puro retrato da inocência. Apareceram ali, não sei de onde.
Foram se aproximando, pensei que levaria uma bronca por estar em área particular. Respeitosamente o cumprimentei, ele retribuiu e parou para conversar. Sua voz, cansada pelos anos, era grave e firme.
Era um senhor simples, como tantos senhores que encontro e converso todos os dias.



Não sei se existe esse negócio de alma, mas se existir a minha soube na hora que eu estava diante de uma autoridade. Me falou poucas coisas, a maioria delas amenidades. Mas pra mim, essas amenidades me soaram como grandes lições, palavras de valor. Conversamos por breves minutos. Nos despedimos. Eles sumiram na floresta, da mesma forma como apareceram. Eu continuei meu caminho, mas muito impressionado, honrado e feliz. Ser bobo tem dessas vantagens: qualquer coisa impressiona. Pra mim é como se aqueles dois sempre foram parte desse lugar mágico. Esse encontro me fez ganhar bem mais que o dia.




sexta-feira, 29 de junho de 2012

Sobre a hipsografia...


"Serra da Boa Esperança, esperança que encerra
No coração do Brasil um punhado de terra
No coração de quem vai, no coração de quem vem
Serra da Boa Esperança, meu último bem"
(Lamartine Babo)



Tenho uma crença: não há jeito melhor para se conhecer um lugar do que percorrê-lo a pé. Saí cedo de casa. Meu objetivo era seguir o trecho ferroviário da Serra da Bucãina/Morro da Mesa, que fica no município de Araguari-MG, próximo à divisa com Goiás. Esse trecho, de construção onerosa e operação delicada no vale do rio Paranaíba, é considerado um dos fatores mais importantes para a desistência da Mogiana em chegar até Catalão. A companhia preferiu não prosseguir além de Araguari. Esse trecho de topografia difícil acabou sendo construído pela Estrada de Ferro Goyaz (EFG) nos primeiros anos da década de 1910, cerca de 15 anos depois da chegada da Mogiana em Araguari.




Na década de 1980 uma nova linha foi construída a cerca de 15km a leste, e essa linha velha acabou sendo arrancada. O mato cresceu, o acesso se tornou difícil e tudo lá ficou esquecido. Meu objetivo era descer essa serra por onde os trilhos desciam. Eu já tinha tentado fazer isso antes, mas o trecho crítico mede cerca de 9km e fica a quase 40km de Araguari. É muito demorado para ir a pé (um total de 52km só de ida) e de bicicleta pelo leito não é mais possível descer, pela altura do mato, quantidade de valetas de escoamento, queda de barreiras, erosão de aterros, etc. De qualquer jeito ia precisar de tempo de sobra, porque não sabia o que iria encontrar e não tinha notícia de ninguém que tinha feito o mesmo. Até que em 2010 o feriado de 7 de setembro caiu numa terça e consegui “emendar” a segunda. Eu tinha que ir e voltar em 4 dias e assim achei que o tempo daria com sobra.




Lá fui eu, sozinho com mochila, panelas, barraca, etc. A antiga estação de Araguari é o quilômetro zero da EFG. O distrito de Amanhece fica no quilômetro 15, Ararapira no quilômetro 30. O trecho de serra mais pesado começa no quilômetro 38 (lá tinha uma estação com esse nome) e o final da serra mais forte fica no quilômetro 47, onde havia a estação “Horto Florestal”. A partir de lá a ferrovia continuava numa descida mais suave até na estação Engenheiro Bethout (Bitú), km 52, às margens do rio Paranaíba, divisa com Goiás. Desse trecho centenário apenas os primeiros 2,5km ainda existem, ameaçados na área urbana de Araguari. O restante foi erradicado.




Para poupar tempo e esforço físico decidi pular o trecho inicial de Araguari até Amanhece porque esse eu já conhecia muito bem. E de Amanhece em diante eu iria a pé, passando exatamente onde o trem passava. Na metade da manhã cheguei na saída de Araguari para Amanhece e logo ganhei uma carona. Em Amanhece aproveitei para me abastecer de água, extremamente necessária no seco setembro do cerrado. Comprei 2 litros de suco de laranja para ir bebendo no caminho. Mochila cheia e pesada, pé na estrada.




Em Amanhece a ferrovia tomava a direção Oeste para chegar em Ararapira. O leito ferroviário segue paralelo à uma estrada rural, mas eu fui andando exatamente pelo leito, coberto de mato e cheio de buracos, pulando cercas e demais obstáculos. As britas (lastro) eram minha referência, quando havia.



Conforme fui avançando, a Serra do Vale do rio Paranaíba (Serra da Bucãina/do Morro da Mesa) foi aparecendo e oferecendo um panorama muito bonito, apesar da secura da paisagem nesta época.



Aliás, tão seca que 8km depois eu já tinha bebido todo o suco. Apesar da sequidão, sentida principalmente no respirar, e do aspecto de sofrimento das plantas, é justo nessa época que o cerrado dá suas flores mais bonitas, cheirosas e coloridas. Havia muitos pequis floridos, ipês, etc.



Mais ou menos na metade do caminho para Ararapira a estrada de carros corta caminho para a direita, enquanto a ferrovia descrevia uma grande curva, para reencontrar a mesma estrada 2,5km adiante. É um trecho de vegetação mais fechado, mas no geral sem grandes dificuldades.




Um pouco a frente encontrei os alicerces de uma construção ferroviária (uma parada? uma casa de turma?) e os pilares de uma caixa d’água para abastecimento das locomotivas. Em um deles ainda há a inscrição da Diretoria de Obras da EFG, com a data de 25/02/54 (pouco mais de um mês antes da traumática transferência da sede da EFG de Araguari para Goiânia).




Já chegando no povoado de Ararapira, a ferrovia torna a se distanciar da estrada, evitando uma subida. De novo, segui pelo leito ferroviário.




Ao chegar em Ararapira no começo da tarde do sábado, o sol forte, o ar seco e o peso da mochila fizeram sentir o cansaço. A estação foi demolida na década de 1980, restando apenas a plataforma e escadaria. Parei um pouco pra descansar numa venda antiga. Lá algumas poucas pessoas do lugarejo bebiam pinga e petiscavam salame, gastando a folga da tarde de sábado. Alguns me olhavam com cara curiosa. Puxei papo, perguntei algumas coisas, respondi outras. Infelizmente não pude conversar muito. Me abasteci com água, artigo ainda mais raro no trecho a frente. Ararapira foi o último lugar onde eu vi alguém, até o fim do passeio. Comprei uma lata empoeirada de salsicha e continuei o caminho.




Mas assim que saí da venda algumas crianças me cercaram e começaram a perguntar se eu iria saltar de pára-quedas. Achei graça e disse era só uma mochila grande. Pensei: de onde elas tiraram isso? Mas alguns meses depois eu descobri que um piloto havia morrido praticando paraglider lá. E vi que realmente aquela região é muito usada por praticantes desse esporte. Atravessei um colchete e deixei as crianças curiosas e o povoado pra trás. O leito vai rumando ao norte, agora sem muitas estradas pelas vizinhanças. Ele segue por outros caminhos, tangenciando o vale do rio Paranaíba. As paisagens são bonitas demais e dá pra imaginar a admiração das pessoas ao vê-las a partir da janela dos vagões.




Caminhando, ouvi uma explosão, som bem parecido com um trovão. Fiquei observando até entender que, pela localização da poeira branca que se elevou no horizonte, foi uma detonação na mina de calcário, há mais de 10km de distância. São comuns. Continuei caminhando pelos pastos onde o trem passava. Vez ou outra, árvores de grande porte denunciam os 30 anos em que o último trem passou.




A tarde foi acabando e antes de chegar no antigo “Trinta e Oito”, a ferrovia passava por alguns cortes mais ou menos profundos.



Cheguei ao local de acampamento junto com o pôr-do-sol. Era uma antiga vila ferroviária, com várias casas e instalações operacionais. Elas serviam de apoio aos trens que iriam descer a serra e recebiam os trens que acabavam de subir. Foram todas demolidas, restando apenas alguns alicerces perdidos no meio do mato.




Muito cansado, joguei a mochila e corri pra aproveitar o pôr-do-sol, que no cerrado parece ser extremamente colorido. Todas essas fotos foram tiradas no dia 4 de setembro de 2010 neste local.




Assim que o sol se pôs, corri para aproveitar o final da claridade para montar logo a barraca, exatamente sobre o antigo leito.




Não há água para tomar banho. E para beber, tive que me contentar com a que me restava. O calor forte do dia seco foi aos poucos se transformando em frio. Comecei a sentir dor de cabeça, coisa muito rara. Desisti de cozinhar, entrei na barraca e jantei a lata de salsicha. Eu estava me sentindo muito incomodado, mas não sabia com o quê. A noite estava muito silenciosa, sem nenhuma brisa ou som de bicho. Não conseguia dormir, até que ouvi algo se arrastando, de forma cadenciada. Cada vez mais perto. Prestei muita atenção, quase sem respirar. Arrastava, parava. Arrastava, parava. Parecia algo pesado. Em alguns momentos, o som vinha de um lado da barraca. Depois, o som vinha de outro lado. Achei melhor não sair para ver o que era, estava muito perto. Normalmente eu teria saído. O som continuou por mais de uma hora, tempo em que fiquei tentando equilibrar o medo e a curiosidade. Me convenci que de dia era só observar os rastros e entenderia o quê estava arrastando o quê. Em época de poeira tudo forma rastros. Dormi e, sugestionado pelo barulho, sonhei com uma pessoa atropelada pelo trem, que não tinha mais corpo da cintura pra baixo, que se arrastava ao redor da minha barraca. Eu nem tinha alcançado ainda o trecho de serra e já estava passando muito medo.


(Continua na próxima postagem, Sobre o bulício...)


sábado, 4 de fevereiro de 2012

No Coração do Universo...



Gosto do som dos meus pés pisando a estrada.
Depois de poucas horas caminhando, já posso ver, ao descer a pequena colina, um grupo mais denso de árvores. No meio delas, algumas paredes resistindo.
A curiosidade é grande. Haverá pessoas morando lá? Será que o prédio está muito destruído?
Já mais perto, começo a ver mais detalhes. Posso ver que ainda há um telhado. Mas não há mais ninguém morando.



É uma bela estação ferroviária. Esquecida. Ou o que sobrou dela. O sol amarelado do final da tarde forma desenhos bonitos contra o céu extremamente azul. Os trilhos ainda são usados, mas ninguém mais desce ali. O vento frio e leve de maio passa abaixando os capins floridos. Só me lembro de ver esse tipo de capim em ferrovias.
O silêncio é imenso. Só é quebrado vez ou outra por um estalo nas janelas ou rangidos das madeiras.
Dentro do prédio, muito caco de vidro. Muito caco de tudo. Trata-se de um documento em escombros.



De dentro, por frestas e rombos nas paredes dá pra ver o pátio. Ruínas de casas e instalações ferroviárias. Tijolos e telhas de barro. Esses fragmentos são pais e mães de muitas cidades e de muita gente.
Olhando mais uns segundos dá pra imaginar aquele lugar cheio de gente. Trabalhadores carregando coisas. Pais e filhos curiosos esperando o trem. Ansiedade das pessoas.



Mas hoje a ansiedade é outra: uma arquitetura do aguardar em agonia. Um lugar que ficou no limbo da memória. Algo que sumiu do cotidiano das pessoas ainda existe, apesar de ainda estar no mundo físico? Algumas vezes dá pra sentir que deseja terminar logo seus dias de existência. Algumas vezes dá pra ouvir seus uivos de socorro. De quem não quer desaparecer.



Na minha distração ouço um uivo muito mais forte. Olho pela janela, trepidando cada vez mais forte e vejo que se aproxima um trem. Mas não é um trem de passageiros. Nem dá muito tempo de ver, porque passa a toda velocidade um trem de contêineres. E vai embora sem parar. O chiado dos trilhos vai desaparecendo e volta o silêncio costumeiro.



A luz do dia também vai sumindo. Deito na rampa da plataforma e fico olhando para o céu. A estação é um ser vivo e a plataforma é o seu coração. Não há uma só nuvem no céu, que vai tomando cores incríveis. Já dá pra ver uma estrela, mais uma e mais uma.



O céu do mês de maio é muito bonito. O escuro tomou conta de tudo e a cantoria leve dos grilos é hipnotizante. Aquele céu tem algo de irreal. A relativa distância pra qualquer cidade ajuda nesse espetáculo. E não tem mais ninguém pra ver. As estrelas ficam tão fortes e tão próximas que dá pra acreditar que aquela estação se desgrudou do chão. Todo esse cenário, todo esse espetáculo é uma sinfonia preciosa que foi esquecida pela humanidade.



O cansaço do dia começa a bater e a sinfonia da noite se torna o mais belo acalanto que existe. E assim eu não percebo quando caio num sono profundo, olhando para o céu e com a cabeça apoiada nas mãos sob a nuca, deitado no coração do universo.


terça-feira, 9 de agosto de 2011

Sobre o repúdio à mordaça...

Diário de Araguari, 05/ago/2011
Curtas (pág. 2)



Saia Justa
Uma comitiva de vereadores que foi a Brasília voltou chateada com um fato que presenciaram. Durante visita, na quarta-feira, eles foram ao MEC - Ministério da Educação -, que tem um dispositivo que permite localizar, via satélite, áreas ideais para a construção de creches com recursos federais [Google Earth]. Durante as buscas, foram mostradas várias fotos postadas pelo fotógrafo araguarino que assina seus trabalhos como Glaucio Henrique Chaves e que estariam prejudicando em muito a imagem de Araguari por todo país. [será que são as minhas fotografias ou é o descaso das autoridades e de quase toda a imprensa é que prejudicam a cidade?]
Saia Justa II
O fotógrafo seria responsável pela maioria das fotos do município postadas no programa de satélite do Google, de grande acesso mundial [porque se fosse só em Araguari até hoje nem tinham visto. Precisou de alguém de longe avisar]. O fotógrafo teria registrado imagens de 2005 [querem delicadamente jogar a culpa na gestão anterior, mas tem fotos desde 1998 até hoje] e, no satélite, podem ser acessadas através de janelas, cujas fotografias ele legendou com extrema crítica [afinal crítica nos outros é refresco, né], não escapando sequer uma carroça de entulho flagrada em lotes abandonados. [será que falam dessa mínima carrocinha de lixo num terreno vago? Um lixão de grandes proporções perto do viaduto de Amanhece? 


Ou dessa carrocinha que virou vários e vários quarteirões cobertos de lixo no bairro Brasília? 


É tanto lixo espalhado ao redor da cidade que não sei qual carrocinha eles se referem. Se as fotos estiverem duvidosas, basta ir lá e verificar, existe um mapinha em cada uma delas]

Constrangido com os vereadores, o operador do sistema sugeriu que alguma medida fosse tomada para retirar as legendas pejorativas em relação à cidade de Araguari. [Legendas pejorativas? E quanto ao lixo pejorativo? E quanto às autoridades pejorativas? Afinal quais atitudes tomar numa cidade pejorativa?]

Estrago
Para os vereadores, grandes empresários de toda parte do país usam essa ferramenta para identificar áreas em cidades onde existe o interesse de investir [de certo são empresários só de internet, não analisam vários indicadores e tudo mais, pesquisam só pelo Google] e, neste caso, Araguari, certamente, pode ter sofrido perda de oportunidades de negócios, por causa da atitude do fotógrafo. [será que algum empresário vai querer investir numa cidade que não se cuida? Que fotógrafo maldito é esse? Será que ele mostra uma cidade irreal?] Certamente, o fato é desagradável, mas não se pode ignorar que a cidade precisa mesmo de cuidar melhor de sua imagem. [imagem??? Os caras continuam falando de imagem????]. O diálogo com o fotógrafo deve ser aberto, de imediato. [Quem sabe a gente “convence” ele a desistir de esfregar a realidade que ninguém quer ver?]

Repúdio
Consta ainda que na próxima terça-feira, quando acontecerá nova sessão da Câmara [que se reúne apenas uma vez por semana], os vereadores já preparam uma "Moção de Repúdio" [podia muito ser verdade] contra o fotógrafo, pois consideram que ele pode não ter noção [o sem-noção agora sou eu] do que representam os seus atos. Que tal convidar o rapaz para ser ouvido na casa de leis? O diálogo pode resolver.


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Meu repúdio:
Todo jornal deveria tratar a liberdade como algo sagrado. Deveria repudiar, sem demoras, qualquer tipo de censura. Basta pensar que nenhuma censura é saudável, nem inteligente. Censura e interesse público são opostos. Em Araguari, pelo visto, segundo o jornal Diário de Araguari, as minhas fotografias incomodam muito. Deixaram os nobilíssimos vereadores em “saia justa”. Mas o que os vereadores talvez se esquecem, é que as minhas fotografias somente retratam a realidade. Boa ou ruim. Elas são um espelho, que pode ser bonito ou feio, conforme o caso. Quem tem medo da realidade? A quem interessaria esconder as vergonhas da antiga Brejo Alegre? Se a realidade é motivo de vergonha, a melhor atitude a tomar é trabalhar. Se há lixo sendo jogado irregularmente todos os dias por toda parte (incluindo por órgãos da própria prefeitura que eu já fotografei), então sugiro que TRABALHEM. Mas quando falo trabalhar, não me refiro a repudiar o que lhes dá náuseas. Me refiro à tomar todas as medidas para que esse lixo seja depositado nos lugares corretos para isso. Se Araguari, uma cidade de 110 mil habitantes, se sente envergonhada com fotografias de árvores sendo cortadas pela prefeitura sem as devidas autorizações e sem a menor necessidade...



...deveria era sentir vergonha por ter deixado isso acontecer. Deveria sentir vergonha da reforma estar ocorrendo sem nenhum projeto. A cidade deveria sentir vergonha pelo fato de que quase todo o seu esgoto doméstico ser lançado na natureza SEM NENHUM TRATAMENTO. Que vergonha. Em breve será a maior cidade de Minas que não tem tratamento de esgoto. E a vergonha não é de quem divulga isso, muito pelo contrário.
Se as minhas fotografias, depois de tanto tempo, provocaram um puxão de orelha das nossas autoridades LÁ EM BRASÍLIA, então fico tremendamente feliz. É pra isso que elas servem: alertar. Bem que todas as nossas autoridades deveriam fazer o mesmo que eu: ter coragem. Mas eu entendo que é muito complicado. Bem que os jornais deveriam estar do meu lado, mostrando tudo o que encontram, sem medo de perder suas preciosas fontes de recursos. Se as minhas fotos mostram uma residência TOMBADA sendo demolida...




...sinto muito, mas a culpa não é minha. Guardo orgulhosamente os jornais que insistiam em defender a demolição, como se destruir casas antigas fosse uma via de desenvolvimento. Esse detalhe esconde um fato interessante: os maus jornais tendem a ser simpáticos aos interesses das gentes poderosas e não à realidade. Não são jornalistas, são negociantes. Se as fotos mostram uma cidade que já foi tão bonita ser deglutida pelas autoridades e com a aprovação de boa parte da sua população, então paciência. Escolas tradicionais que viraram estacionamento...


...bonitas estações de trem em vias de desabamento


Que vergonha. Se elas mostram lugares bonitos que foram cobertos pela construção de uma usina hidrelétrica particular e que teve maciço apoio cego dos vereadores, do prefeito, das entidades de classe que hoje se arrependem porque o estrago não chega nem perto dos ganhos, então pelo menos aprendam com o passado.



. Se as minhas fotos mostram ruas de pedra sendo cobertas com milhões de reais de dinheiro público para causar problemas ao invés de resolvê-los, só indicam que ainda não temos senso crítico por aqui...


Trilhos sendo invadidos ou arrancados, pátio ferroviário sendo destruído, etc. 



Se as pessoas me repudiam ou se me enaltecem, não faz a menor diferença. A diferença entre mim e eles é justo essa: meus objetivos não se encerram a cada eleição. Mas infelizmente, o quadro que vai se firmando em Araguari é de extremíssima vergonha. Particularmente acho que nunca passamos por um período tão obscuro. Parece que quando os maus governantes se instalam, a imprensa marrom viceja. Durante o asfaltamento das ruas de pedra, ao invés de louvar o belíssimo ato de um protesto pacífico de quem entendeu que o asfalto seria feito sem ampla discussão e estacionou seus carros para dificultar a destruição, no mesmo sentimento do chinês que lutou contra tanques na Praça da Paz Celestial (obviamente numa escala menor, claro), quase toda a imprensa de Araguari foi massivamente contra os protestos. É nessas frestas que ela mostra sua verdadeira cara. Da mesma forma, quando cortavam as árvores da praça Manoel Bonito sem ter as autorizações necessárias, ao invés da imprensa (salvo raras e honrosas exceções) PELO MENOS investigar, seguiu dois caminhos: ficou muda (que é o pior) ou então vociferou contra as raras pessoas que tentaram fazer com que a lei fosse cumprida. Lei é lei e pronto, não se pode transigir. Sinto muita vergonha (alheia) com esses maus profissionais. E são tantos. Eles não se dão conta que suas “pérolas” serão analisadas pelo tempo. Eu as coleciono. Seus nomes caem no ridículo e são uma vergonha para toda a cidade e principalmente para os bons profissionais, que via de regra, se mudam para outras plagas em busca de um ambiente saudável para seu ofício. Virou uma seleção anti-natural. Para os maus, a pior vergonha é aquela que eles passam e nem percebem. Aqui também entram os que preferem ficar calados. Repito que acho que são os piores, não importando o motivo do silêncio deles.


Quanto aos vereadores editarem uma nota de repúdio contra mim, se isso for verdade (afinal as notícias dos meios oficiais não são lá muito confiáveis) torço com todas as forças para que seja mesmo e bem que podiam “convidar o rapaz para ser ouvido na casa de leis”. Se tiverem coragem, terei muito orgulho e será mais uma das histórias que contarei para os meus netos. Não publiquei essa nota antes justo por isso: não queria influenciar a atitude deles. Será que vão editar uma moção de repúdio para o William Bonner, jornalista da Globo, toda vez em que ousar a falar da triste realidade de nossa cidade? E será que já editaram uma moção de aplauso para cada vez que a prefeitura gastou centenas de milhares de reais para anunciar que está pintando os meios-fios do “ninho de amor”?


Mas o que eu me divirto de verdade é que as minhas fotos mostram 80% de coisas bonitas do meu município e de qualquer parte do Brasil que eu já passei. Basta procurar e ver. Não vou nem deixar o link, procure no Google por imagens com o meu nome. Dois ou três anos atrás, nos meus tempos de faculdade, juntamente com outros dois amigos, rodamos o Triângulo Mineiro expondo as fotografias sobre as belezas de Araguari e região. Sem nenhum apoio de vereador ou prefeito ou quem quer que seja. Levávamos as fotos por gosto, de moto mesmo, nunca cobramos nada. Perguntem em Estrela do Sul. Uberaba. Sacramento. Uberlândia. Nova Ponte. Nenhum de nós é filiado a nenhum partido político ou coisa assim. As fotos sempre foram muito elogiadas, foram notícia nos jornais locais e até entraram em um documentário que estava sendo feito em Desemboque, município de Sacramento. Ainda guardo orgulhoso o livro de assinaturas. Em Araguari, a exposição ficou em vários lugares, dentre eles no Palácio dos Ferroviários e em lugares como a Escola Estadual José Carneiro da Cunha, no Bairro São Sebastião.



Basta ir lá e perguntar se gostaram, se cobramos alguma coisa, se contou créditos em alguma faculdade. Sempre fomos tratados com muito carinho. Nosso objetivo era outro e foi plenamente alcançado: as pessoas se deslumbrarem com as imagens, valorizarem a cidade delas e elas próprias fazerem suas imagens também. Portanto, depois de tanto falatório que vejo por aí, dou risada porque quem está passando vergonha não sou eu. Tanto é assim que QUATRO dias antes dessa nota do Diário ser publicada, meu nome foi expressamente citado no MESMO JORNAL entre dois dos maiores fotógrafos que essa terra jamais viu: Geraldo Vieira e Anton Gebhardt, por conta de uma exposição fotográfica que comemora os 123 anos de Araguari.



Apesar do meu extremo orgulho pela frase, entre esses dois maiores vultos e mim é evidente que existe uma constelação de fotógrafos araguarinos. Se meu nome figurar nesta lista, estará entre os últimos da fila. Mas dentre os primeiros, há muitos que são reconhecidos MUNDIALMENTE. Só o são na terra natal depois que já se cansaram de homenagens em outras terras. Poderia citar vários casos assim. E por isso também vai o meu repúdio à imprensa araguarina, de modo geral. Será que os ilustres radialistas falam disso nos seus fecundos programas? Eu nem sou araguarino, não ganho nenhum centavo para falar bem ou mal, mas amo essa terra muito mais do que boa parte dos araguarinos. Aliás, isso parece até uma praxe: talvez seja mais fácil encontrar estrangeiros que cantam as belezas de Araguari do que os nativos. Aqui também vai o meu repúdio à todos os araguarinos que deixam de valorizar sua terra natal. Araguari (ainda) tem muitos motivos para merecer seu carinho.


Talvez o padroeiro da cidade ser o Bom Jesus da Cana Verde, que foi humilhado e injustiçado, seja proposital. Também talvez seja proposital que o distinto Fórum leve o nome do advogado que usou de todos os recursos para a condenação dos inocentes Irmãos Naves. Para estes, que tiveram a vida dizimada por conta de um crime que jamais cometeram, uma homenagem lhes foi reservada: o presídio levou, asquerosamente por muitos anos, o nome dos irmãos inocentes que foram injustiçados. Até o Palácio dos Ferroviários, antiga estação de trem que colocou a cidade no mapa, abriga aqueles que fazem questão de destruí-la. Mesmo a Câmara dos Vereadores não foge à regra: funciona numa residência que foi doada à municipalidade em troca do perdão de recursos supostamente desviados, numa história que nunca ficou suficientemente esclarecida. E agora os jornais vêm a público exigir censura.

Portanto, por tudo isso, à Rádio Onda Viva AM (cuja Revista Mais FM, ligada a um determinado vereador conforme o próprio sítio na internet, também publicou fotografias minhas sem a devida autorização e ainda omitindo a minha autoria) faculto que me peça desculpas por ter divulgado em vários dias a notícia sem procurar me ouvir ou verificar as informações. Se eles acham as fotografias tão repudiantes hoje, por que então se apropriaram delas tempos atrás? A Onda Viva AM pode ler a presente nota completa no ar ou aguardar mais um processo judicial.


Também faculto ao Diário de Araguari, que também já fez o mesmo, que divulgue a presente nota completa ou aguarde um processo judicial a esse respeito.  Também exigirei o meu legítimo direito de resposta por não terem ao menos me ouvido, como parece mesmo ser a praxe de tais meios de comunicação.

Igualmente, se a Câmara dos Vereadores de Araguari tratarem da tal Moção de Repúdio a que o jornal se refere e não me pedirem desculpas por terem provavelmente sido ludibriados por suas próprias fontes estranhas e nem ao menos terem me procurado ou investigado, também serão alvo de processos judiciais.

Gostaria muito de contar a história completa do motivo do referido jornal Diário de Araguari ter publicado essa nota “esclarecedora”. Mas, ao contrário do mesmo, ainda estou em fase de coleta de provas para poder contar essa história sem incorrer em injustiça. Fica a dica para o(s) jornal(is) e para demais profissionais da imprensa: a ética ensina que deve-se ouvir todos os lados da notícia antes de publicá-la. Senão é mera fofoca e não tem valor algum.


Se alguém que estiver lendo essa notícia achou tudo isso muito repugnante, convoco a uma ação: para provocar os jornais de Araguari a serem mais competentes, sugiro que cancele a assinatura dos veículos de baixa qualidade e evitem comprar ou anunciar em tais jornais, porque seu dinheiro estará financiando a injustiça. Não injustiça contra mim, mas uma injustiça para com a qualidade, uma injustiça para com qualquer pessoa que ousa a ficar no caminho dos poderosos. Uma injustiça para com a notícia verdadeira. O jornal não vai quebrar, só vai deixar de receber O SEU dinheiro. O quadro precisa mudar e depende dessa atitude. Não seja hipócrita ao aceitar o argumento de que assim deixará de saber das notícias. A internet desempenha um papel muito mais honesto, mais limpo e independente. Existem bons blogs e sites por aí. Tanto é que as minhas fotos jamais seriam publicadas se dependessem da imprensa local. E vocês nem estariam lendo essa nota. Sem contar que a assinatura de um serviço de internet é bem mais barata do que a de um jornal. Quanto às rádios, faz muitos anos que não as ouço devido à péssima qualidade para os meus padrões. Acho que existem coisas muito mais interessantes e teatros muito mais honestos por aí. Meu aplauso à imprensa de outras cidades, essa sim mostra um quadro que julgo mais real.


Se você gosta de fotografar, fotografe. Mostre o que você vê. Coisas boas ou ruins. O que te indigna e o que te orgulha. No meu caso, repito que não ganho dinheiro com as minhas fotografias. Minha câmera é uma digitalzinha que não custa nem cem reais. Faça o mesmo: fotografe sem medo. Se estiver num ambiente público, como ruas e praças, você é livre para fotografar e publicar tudo o que quiser. Divulgue. Não se intimide com governos desastrosos. Eles passarão. Independente do que as suas fotos mostram, a vergonha não é sua. Talvez seria vergonha para os meios de comunicação, principalmente se você fizer referência direta à eles, do tipo: “a imprensa de Araguari não mostra, mas eu mostro.” Ou então: “a vergonha dessa foto é de todos que deixaram a chegar a esse ponto.” Ou então, simplesmente coloque “nota de repúdio”. Se você tiver algum interesse, entre em contato. Quem sabe podemos organizar um fotografaço em favor de Araguari? Alguém aceita?
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Em tempo, atualizando as notícias, depois disso tudo foi organizado um fotografaço (um passeio fotográfico) aqui em Araguari, que aconteceu no dia 15 de agosto (feriado regional). Foi um sucesso e a repercussão foi muito boa. Agradecemos a todos que ajudaram e que participaram. Convidamos a todos para os próximos passeios. As fotos farão parte de uma exposição e também serão postadas no Google Earth.


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 REPERCUSSÃO : - Clique aqui e acesse a lista completa e atualizada das ações e da repercussão:

Vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=yNHdgF0SYkM

Textos: http://aculpaedofotografo.wordpress.com/2011/08/28/lista-das-repercussoes/






09/08/2011 - Centro de Mídia Independente - SOBRE O REPÚDIO À MORDAÇA - http://prod.midiaindependente.org/pt/blue/2011/08/495356.shtml

11/08/2011 - Poucas e Boas - VERGONHA? QUEM SENTE VERGONHA SOU EU! - http://poucaseboasari.blogspot.com/2011/08/vergonha-quem-sente-vergonha-sou-eu.html


12/08/2011 - Dignow - VEREADORES DE ARAGUARI MOBILIZAM-SE CONTRA FOTÓGRAFO - http://www.dignow.org/post/vereadores-de-araguari-mobilizam-se-contra-fot%C3%B3grafo-2686948-38247.html


12/08/2011 - Resumo Fotográfico.com - VEREADORES DE ARAGUARI MOBILIZAM-SE CONTRA FOTÓGRAFO - http://www.resumofotografico.com/2011/08/vereadores-contra-fotografo.html


13/08/2011 - Observatório de Araguari - FOTOGRAFAÇO - http://observatoriodearaguari.blogspot.com/2011/08/fotografaco.html


15/08/2011 - Blog Saúde na Tela - FOTOGRAFAÇO REÚNE AMIGOS E REGISTRA ARAGUARI - http://saudenatela.blogspot.com/2011/08/cidadaos-fotografam-araguari.html


17/08/2011 - Observatório de Araguari - RESULTADO DO FOTOGRAFAÇO - http://observatoriodearaguari.blogspot.com/2011/08/resultado-do-fotografaco.html


17/08/2011 - Diário de Araguari - CURTAS pág. 2
"AMEAÇA?: Indignado com as informações desta CURTAS sobre fotos da cidade disponibilizadas na internet, o fotógrafo araguarino Gláucio Henrique Chaves ameaçou, na grande rede social, processar o jornal pela divulgação das informações repassadas pelos vereadores da cidade. Não temos o menor receio quanto a isso, pois apenas divulgamos o que os vereadores afirmaram, os quais têm credibilidade para isso.

AMEAÇA? II :  ninguém está imune a críticas. Se o fotografo tem o direito de filmar o que lhe interessa, também [terá  que suportar as críticas de quem nao gosta de seu trabalho. As fotos foram vistas pelos vereadores em Bsb e eles tem amplo direito de criticar. aliás, este diário tem divulgado muita coisa que os vereadores nao gostam, mas nem por isso fazem ameaças.os leitores é q vao avaliar os fatos, como permite a liberdade de expressão, tao falada e exigida por todos"


17/08/2011 - Coluna Lêda Pinho do Jornal Gazeta do Triângulo, pág. 10 - ADESÃO - 
"Foi grande o número de pessoas a aderir o – digamos  - movimento de apoio ao jovem Gláucio Henrique, por conta do entrevero entre ele e vereadores, na capital federal.
Aquela história dos registros fotográficos mostrando lixos depositados em locais inadequados e otras cositas màs, aí pela cidade sorriso.
As fotos não mentem jamais e o protagonista – Gláucio -  não tem outra intenção a não ser de ver sua terra em melhores condições de limpeza, desenvolvimento e progresso."
http://www.gazetadotriangulo.com.br/novo/index.php?option=com_content&view=category&layout=blog&id=30&Itemid=293



20/08/2011 - Editorial do jornal Gazeta do Triângulo, pág.2 - A "CULPA" NÃO PODE SER APENAS DO FOTÓGRAFO -  http://www.gazetadotriangulo.com.br/novo/index.php?option=com_content&amp%3Bview=article&amp%3Bid=16702%3Aa-culpa-nao-pode-ser-apenas-do-fotografo&amp%3Bcatid=24%3Aartigos&amp%3BItemid=312


20/08/2011 - Crônica do Meu Interior - GLÁUCIO, A IMAGEM QUE FICA - http://palavrasemendadas.blogspot.com/2011/08/glaucio-imagem-que-fica.html


22/08/2011 - Observatório de Araguari - A CULPA É DO FOTÓGRAFO - http://observatoriodearaguari.blogspot.com/2011/08/culpa-e-do-fotografo.html

23/08/2011 - Poucas e Boas - FOTOGRAFAÇO - A CULPA É DO FOTÓGRAFO - http://poucaseboasari.blogspot.com/2011/08/fotografaco-culpa-e-do-fotografo.html