quinta-feira, 29 de julho de 2010

Sobre o cardinal...


A humanidade inteira cabe num carro de boi, que desde que o mundo é mundo, lá-envai estrada afora.
Vai abrigada dentro de uma capotinha de lona. Ela segue num sacolejar gostoso, que raras vezes assusta, mas não ameaça de fato.
Não há janelas. Dizem que é porque elas permitem a entrada do desconforto, da chuva e do vento. Há tempos dão jeito em quem quiser abrir alguma. E isso basta.




Mas existem os Nobres. Os Políticos. Os Estudados. Os Eclesiásticos. Eles, com a permissão do rei (que também vai dentro da capotinha), pintaram uma bela paisagem por dentro da lona. Quando enjoam, pintam de outras cores. E isso basta.
Vez ou outra um desequilibrado quer descer da carroça, sabe que pode andar por conta própria. O idiota nem percebe que isso não é permitido: como ele poderia descer sem abrir um buraco por onde passe a chuva? Silenciem-no e basta. Cada vez menos gente pensa em descer.




Não se sabe quem puxa a carroça. Não se sabe quem a guia, nem pra onde vai.
Nada disso importa, todos só querem ficar bem quentinhos e acomodados. E isso lhes basta.
Uma vez disseram que a humanidade caminha. Já falaram até que ela canta. Ninguém ainda sabe que quem canta mesmo é o carro de boi. Se tivessem olhos, enxergariam que não têm pés, nem ouvidos, nem voz. Só coração (um tipo egocêntrico de estômago). É a âncora que merecem e lhes basta por toda a estrada.


quarta-feira, 9 de junho de 2010

Sobre a afasia...

Em um momento tão estressante, frustrante e pesado como é a elaboração de um trabalho final de faculdade (principalmente pra quem não acredita em faculdade), uma janela se abre no meio do escuro.




Escapo por uma pequena fresta e me reencontro com a vida.




Numa fração de tempo do meu tamanho, não tenho direito de perder a oportunidade. É questão de vida. Higiene mental.
Saio sem fazer barulho. O dia começa a nascer.




Encontro com amigos desconhecidos. Eles também parecem fazer o mesmo, cada um escapando das suas senzalas antes que seus feitores dêem falta. A humanidade dorme, acho que para esquecer que ela existe.




Subo a pé do litoral até as montanhas, passando em meio à floresta por caminhos tortuosos e desconhecidos. O vento canta nos ouvidos e dificulta a caminhada.




A chuva chega e torna o frio ainda mais forte. As roupas se encharcam e as gotas vão roubando o calor do corpo. A luz vai embora e paramos para conviver com os medos dos barulhos de uma noite chuvosa.




Atravessamos o dia, mas depois dele é a noite quem passa. A velocidade é a dela.
A escuridão bloqueia o sentido da visão e por isso ficamos mais introspectivos. Mais auditivos, mais cuidadosos.
















O não-domínio do espaço nos força à fragilidade. Às vezes dá impressão que o dia nunca mais vai nascer.
Nos primeiros momentos o escuro nos sufoca. Mas não demora, fazemos amizade com ele, reunidos ao redor das panelas.







Em meio às ruínas do que um dia foi o pino principal do Brasil econômico, a vida selvagem cresce.






Pequenos animais aparecem, curiosos com os barulhos ou com os cheiros. Torcemos para que não atraiam os grandes. O território é deles.








Na bonita dança dos climas, pudemos presenciar um dia bonito nascendo. É hora de colocar as coisas para secar.




É nessa hora que vem o indescritível sentimento de se considerar um dos poucos humanos que têm contato com as coisas mais puras e simples do mundo.




É boa a sensação de encontrar situações para as quais não existem palavras. É isso que eu procuro. E tenho encontrado.





Que segredo existe na noite? Alguém percebe quais milagres há no sol?




Será que alguém, depois de adulto, já viu a beleza que tem no céu? Viu? Sentiu a luta entre o vermelho denso e nervoso que trazemos dentro de nós e o azul poderoso e leve que há no céu?




Respirou uma paisagem, tentando fazer o interior dos pulmões enxergar a amplidão exterior? 




Penso que não. Se os homens tivessem olhos, jamais fariam casas. Elas são uma ofensa ao mundo. O vermelho que enxergam é o do semáforo. Estátuas ocupadas com seus rendimentos. Estátuas não sentem frio, só planejam sua permanência, sem propósito.




Bate a certeza de que nenhuma carreira profissional substitui esses momentos. Satisfação é saber que valeu a pena.






Veja a primeira travessia da Funicular: http://efgoyaz.blogspot.com/2009/08/sobre-barbarie.html
Mais fotos: http://picasaweb.google.com/efgoyaz/SerraDoMar#

terça-feira, 4 de maio de 2010

Sobre as alvíssaras...


Proteção é aprisionamento.
Está relacionada, de um lado ao egoísmo do protetor e de outro, ao conforto do aprisionado.
Palavras protegem as idéias. Casas protegem pessoas. Os Estados protegem os seus povos. A Igreja nos protege do Mal. O dinheiro e o saber são a segurança das elites. Os ossos protegem as vísceras. O medo protege a gente de nós mesmos. As mulheres procuram proteção no casamento. Filhotes de passarinhos se escondem debaixo das asas da mãe. Os pedestres, no guarda-chuva. Tímidos, internautas, costureiras, assaltantes, doentes, pecadores, esportistas. Todo mundo abocanhando a sua proteção. E o mundo é um universo morto.

Pelo menos até que alguém escape da proteção. O broto, num ímpeto suicida, rompe a casca da semente.
Bom é poder correr, cair e ralar no chão. É perder a tampa do dedão na pelada de domingo. Bom é fugir da proteção. Bom é ignorar a consciência, que serve para nos proteger do amanhã. Os problemas de amanhã a gente resolve amanhã. Os que procuram proteção na saúde dizem que viver é saber envelhecer, mas viver não é saber e nem é envelhecer. É a arte de conquistar a liberdade. É sob as asas dela que nos protegemos da ferrugem.


Trilha sonora do vídeo: Fragmentos de "Casa da Lua Cheia", de Cláudio Nucci.






domingo, 7 de março de 2010

Sobre a diaporese...



Quando se tem a sensação de ter perdido algo, mas não se sabe o que é, é comum que se volte no caminho procurando;




Quando se perde algo, e não se sabe o que é que se perdeu, qualquer coisa encontrada serve.
E qualquer coisa jamais vai servir.




Então, agora quando tenho a sensação que perdi alguma coisa, mas não sei o que é, eu simplesmente ignoro: se eu não sei o que é que eu perdi, é porque não me faz falta.




E me lembro que já levei tanto peso, buscando me precaver para o que eu pudesse encontrar mais à frente. E mais a frente descobri que a maior das precauções é não levar nada.


Sobre a pecilogonia...



Muitas vezes fico pensando na diferença entre educação, ensino e adestramento. E, na mesma hora já me vêm à mente as milhares de restrições que enxergo no ensino universitário. Mas os problemas que vejo já começam bem antes da universidade, ainda nos seus tijolos.
Entendo que a escola deveria ensinar que as verdades que cada pessoa já traz consigo são as mesmas verdades do mundo, só faltando algum ajuste de linguagem entre a criança e o mundo que ela enxerga.

Mas parece que isso dá muito trabalho. No mundo imediatista e impessoal de hoje (e sempre) é bem mais fácil o processo cirúrgico: a escola aplica uma aguda verdade científica para anestesiar, e ano após ano vai amputando as verdades da criança, passar uma matemática para desinfectar, dar uns pontos e pronto. Já podemos passar para a próxima turma.



Agora o ser assim concebido será capaz de acreditar cegamente desde que seja bibliográfico, discutir ferozmente desde que seja científico e confiar fervorosamente, desde que seja matemático.



Aí, a verdade da criança será bem diversa da verdade do mundo. Algumas ficarão um pouco perdidas uns tempos, mas boa parte entrará na faculdade já moldada conforme Procusto. As que ainda não estiverem no ponto ideal, de acordo com a prova de qualidade, aí é só voltar a peça ao início do processo.



E as que não se adaptaram à olaria? O problema nem é estar ou não incluso no processo, afinal tijolos quebrados também têm a sua serventia. Mas será que a abelha é melhor do que a minhoca? Quem estudou mais deve ganhar mais, azar de quem não estudou. E pelo que tenho visto, quanto mais "alto" o nível de escolaridade, mais impessoal parecem as relações. Na faculdade, por exemplo, cansei de ver gente fazendo greve por causa de salários. As desculpas para a greve eram várias, mas no fundo, a luta era só por salário mesmo. Particularmente, na minha visão mais-que-imperfeita sempre achei que quem deveria ganhar os melhores salários eram as professoras do pré-escolar e do primário. Tijolos. Andando por aí temos encontrado tanta gente frustrada sem motivo aparente, tanta gente cansada com tudo como está. Parece que os tijolos quebrados só se acumulam, acumulam.



Quanto mais as críticas às universidades aumentam, melhor. Nem tenho ilusões de um mundo sem a olaria, mas já é um indício de que ao menos ela precisa de uma reforma pesada urgente. Enquanto isso, o desperdício humano é incontável. O tal processo é velado e por isso, mais ameaçador do que o desperdício das guerras. Enquanto a olaria não pára pra manutenção, essas palavras são só lamento de perdedor. Mas um perdedor que sabe que um dia a maromba vai parar.



E hoje a olaria precisa andar rápido. Ela tem uma meta numérica a ser atingida. Os melhores formados (da fôrma) sairão rapidamente para o mercado de trabalho, prestarão concursos onde se atesta quão de acordo com o molde eles estão. Os primeiros da lista serão selecionados, sempre de maneira tão eficaz quanto escolher os primeiros resultados retornados pela pesquisa do Google. Vários deles acreditam estar além dessa baboseira toda. Vários acreditam que têm vontade própria, que podem fazer escolhas. Serão nossos melhores médicos, juízes, engenheiros e outras profissões tradicionais, tão bem valorizadas por nossas novelas.


terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Sobre o calóptero...

Caminhar, percorrer estradas. Fazer o mundo girar sobre e sob os seus pés.

Conhecer, descobrir, descortinar.
Respirar.


As paisagens vão ficando pra trás e com elas, as verdades. Pro caminheiro, sua mente vai tomando a dimensão do mundo. E quanto maior, menor ele se sente.
Melhor ele se sente.
Quem anda a pé pelas estradas não está, na verdade, com os pés no chão. Mas só o caminhante é quem percebe.


Caminha sozinho, mas não é solitário. Porque conforme vai caminhando, o mundo não mais é visto em partes. Tudo vai se juntando, até tudo se tornar uma coisa só. É nessa hora que a caminhada começa, mesmo que esteja há tempos na estrada.

Os pés doem. A sede começa a tilintar, a fome aperta. Mas tudo isso é só prenúncio de descanso logo adiante. De água corrente numa cachoeira que ninguém viu e de um pé de goiaba estrategicamente plantado por Deus.

Nesse programa, não há tempo para sentir pena dos que vivem seu mundo multi-facetado.
Dos que fogem da vida.
Dos que querem vencer a vida, competir, vencer o tempo.
Vencer.
Verdades vencidas.
Estão mortos os que têm mais conhecimento do que coragem, assim como os que têm mais títulos do que vontade.

E pra onde vai me levar o próximo passo? Aonde ele quer ir? Não se está interessado em saber, isso não é da conta do caminhante. E dessa forma, jamais se perde. Aprende. Aprende que não querer nada é ser invencível. E vai.


E usando os pés, a vontade e outros trans-portes, chega num pequeno vilarejo que não está no mapa. Conhece pessoas que não existem no mundo real. Graças a Deus. Vindo junto com elas, histórias que são oferecidas com tal orgulho, quais toalhas de renda. Um universo tecido com carinho desde o sempre pelas suas mãos no profundo tear dos tempos. E você descobre que ouvir é um modo prazeroso de se fazer amizade.

À noitinha, as novelas não seduzem mais do que as conversas com os vizinhos. Crianças brincando nas ruas e cadeiras nas portas das casas de noite tomam um papel muito mais sério e importante do que qualquer forasteiro poderia perceber. Ele só desconfia que nisso está a chave da soberania quase palpável do lugar.
E o forasteiro sorri admirado. E volta para a estrada. O mundo precisa girar.











sábado, 30 de janeiro de 2010

Sobre o ubíquo...

Alguém já deve ter escrito isso em algum lugar, mas existe um processo tão a-vassalador e ao mesmo tempo tão sutil pra tanta gente, e que mesmo assim eu gostaria de falar disso aqui. Ao invés de termos essa conversa em algum barzinho, ou praça, vou discuti-lo no meu blog. E aqui, posso mostrar as fotos que ilustrarão o assunto abordado. Posso anexar alguma música, um documentário, um filme sobre esse processo universal humano.






Desde a época das cavernas, quando o cara via uma cena que o marcava, ele pegava o mundo que percebia, digeria e colocava numa parede. Mais tarde surgiu a matemática. A escrita. Os mapas e plantas. A fotografia. O rádio. O filme. A TV. A internet e todo o mundo vinculado a ela. E que novidade tem nisso? É óbvio que nenhuma, mas particularmente vejo que o homem caminha cada dia mais largando o mundo multidimensional para viver num mundo completamente em 2D. Aí lançam filmes em 3D (que nada mais são do que uma ilusão em 2D). Até a música que sai do computador e do rádio, ou TV, mesmo com recursos tecnológicos mais avançados somente vão conseguir disfarçar uma situação, lançando imagem e som em 2D. Máquinas que fabricam ecos distorcidos de um mundo tão distante.
As pessoas se encontram pelas telas do computador, falam com as outras pelo celular, se deparam numa boate ou num shopping, que nada mais são do que simulacros em 2D de um mundo em 3D. Nem ousaria chamá-los de "espaços".
Parece que desde a época das cavernas a realidade esmaga a paciência e a compreensão do homem, como se queimasse. E ele, para não se sufocar com a realidade de ser limitado e vulnerável, inventa várias cascas-cenário, talvez buscando se proteger da chuva, do vento e dos bichos da floresta. Penso que, pelo menos algumas vezes, seria bom ele perder essa mania. E pensando bem, talvez a chave para muitos dos problemas da própria humanidade esteja nisso. Dizem que memória é uma relação entre a vivência e a interpretação. E se damos muito mais peso para a interpretação do que para a vivência, o desequilíbrio dessa relação não possibilita o enraizamento dessa pessoa com o seu mundo de forma satisfatória.






E assim, tudo no mundo está aí para ser esmiuçado? Desvendado? Conquistado? Digerido? Explicado? Teorizado? Trovões são descargas atmosféricas. Fantasmas não existem. O dia tem 24 horas. Essa é função do homem: é uma lagarta que vai comendo tudo o que existe, transformando sertão em civilização, engolindo vivência e devolvendo interpretação, para que terceiros engulam essa interpretação, e assim continua a roda.
Desta forma não sobra espaço pra mais nada. É, agora sim, tá tudo explicado.